quinta-feira, 29 de abril de 2010

O Chimpanzé que contava histórias

“Droga! Me ferrei! Será que vou morrer ou vou apenas para um Zoológico?”.
Aquele Chimpanzé, chamado George, já estava conformado com a situação. Havia sido capturado por uns homens esquisitos, que lhe atiraram um dardo. Ele dormiu, e quando acordou já estava num compartimento de carga, voando para algum lugar que ele não podia imaginar.

Não que estivesse muito curioso. Estava, como já foi dito, conformado. Sabia que para casa é que aquele vôo não era. E se não era para casa, para um lugar bom é que não era. Sabe, chimpanzés não almejam ganhar uma viagem surpresa para a Disney, Especialmente quando parte do prêmio consiste em ser seqüestrado.



Depois de mais algumas horas, George pousou. Foi logo colocado dentro de outro veículo, e de lá rumou para o seu destino. O lugar era enorme, como George nunca tinha sonhado em ver, e era tão esquisito quanto ele jamais pudera imaginar. Ele não fazia idéia do que era aquilo. Não tinha cara de abatedouro, muito menos de zoológico, embora tivessem outros animais por ali...

Isolado numa sala, ele começou a se perguntar o que fazia ali, quem eram aqueles caras e qual seria seu destino. Ainda estava crente que iria morrer, mas já não fazia idéia de como. E nem por que.

Os dias passavam, e nada mudava. Aliás, o tratamento era incrivelmente bom. Comida e bebida grátis, tudo do bom e do melhor, alguns brinquedos, exercícios físicos e boa parte do dia ele passava numa piscina. Isso quando não entrava em compartimentos esquisitos, que ele apelidou de “máquinas engraçadas de flutuar”.

"это шимпанзе, который идет в космос?”. Essa era a frase que ele mais ouvia.
O idioma, George que era um chimpanzé sociável que observava muitos turistas em seus tempos de floresta, deduziu ser russo. Ele pelo menos já sabia onde estava, na Rússia. Mas o que essa frase queria dizer, afinal?

A palavra que ele mais ouvia era “пространство”. E o tempo passava. E ele treinava, comia, descansava, brincava. E ouvia, curioso para saber o que diziam as pessoas, que cuidavam dele com tanto carinho. Cada vez ele chegava mais perto de entender. Ele sabia que a frase indagava: “Esse é o chimpanzé que vai para o...?”. Faltava a ultima palavra. Essa palavra provavelmente tinha o mesmo significado que aquela que era tão repetida pelos humanos ao seu redor. Para onde ele ia?

Foi então que o dia chegou. Vestiram nele uma espécie de “armadura gozada, branca, pesada e com um vidro no rosto”, nas palavras do próprio. Levaram-no para um veículo esquisito, gigantesco e que ficava parado na vertical. Trancaram o coitado lá, sozinho.

Passou-se um tempo. A sensação era até pior do que a de quando ele acordou no avião. A duvida agora não era “para onde vou?”, e sim “onde foi que eu vim parar?”. E tudo começou a tremer. Muito. E não parava de tremer. Ele olhou a janela e viu que o veiculo começou a subir, tal qual um avião. Mas tremia muito mais. Será que estava quebrado? Já havia subido muito e nada de parar de tremer.

Até que parou a tremedeira. Mas não parou de subir. Já estava muito mais alto que um avião, e não parava, continuava a subir... E subir... E subir... George, apavorado, só podia segurar-se em uma cadeira, sem coragem nem de abrir a boca para gritar.

Até que ele percebeu que estava flutuando. Sim, igual nas máquinas onde ele brincava! A curiosidade era mais forte que o medo, e ele resolveu olhar novamente pela janela. E quase caiu de costas: Viu o planeta terra. De cima!

Então era isso que significava aquela frase! Mas é claro: “Então esse é o chimpanzé que vai para o espaço?”, indagavam os curiosos. Espaço, alias, era uma palavra repedida a exaustão por todos os envolvidos no projeto. E ele era o projeto!

O medo passou, e a partir daí George aproveitou completamente a viagem. Voltou a terra, onde passou alguns meses num período de readaptação, antes de ser devolvido a sua terra natal.


Tão logo voltou para a África, George correu para contar a seus amigos tudo sobre a sua aventura.
“Você está vivo?”, “Conseguiu fugir do zoológico?” e “Onde você esteve por tanto tempo?” eram as primeiras coisas que todos perguntavam.

George, orgulhoso, contava tudo, com riqueza de detalhes. E todos riam dele. “Não sei por onde você esteve, mas sei que você voltou louco! Hahaha” diziam uns. Outros ficavam bravos. “Ficou todo esse tempo fora, para voltar inventando essas coisas absurdas? Viajar pelas estrelas, até parece que eu nasci ontem!”.

Provavelmente nunca irão acreditar em George. Mas isso nem importa muito para ele. Cada vez que ele olha para cima, ele pensa consigo mesmo, feliz e orgulhoso: “É. Eu já estive aí. E na Rússia também...”

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