domingo, 18 de abril de 2010

Por amor, para agradar o amor

  Ele gostava de fazer aquilo, e gostava muito. Desde que ele tinha lembranças, ele escrevia, e essa era a única coisa que ele sabia fazer.. Era ali que ele ficava livre. Quando ele começava a brincar com as palavras, ele não via nada, ele não ouvia nada. Ficava em transe, e nada era capaz de tirá-lo desse estado enquanto ele não concluisse.

  Ele fazia por ele mesmo. Gostava de imaginar, e gostava de registrar. Sempre sonhou ter leitores, como todo escritor, porém, na essência, ele escrevia para ele mesmo. Tantas e tantas vezes ele escreveu sozinho, leu sozinho, gostou do que viu, e só.  Escrevia quando desse na telha, quando achasse que devia, e quando queria se encontrar com sua amiga: A solidão. Ele era amigo da solidão, e essa o acompanhou desde pequeno.
  Aprendeu a lidar com ela. Aprendeu a conviver. E ela tornou-se uma grande aliada na hora de escrever. Era com ela que surgiam as melhores ideias.


  Mas os tempos mudaram, e surgiu, enfim, a possibilidade dele ter seus leitores, ainda que poucos, ainda que raros. Mas ele não estaria mais sozinho, e isso era o que importava. A solidão ameaçou sair de cena, e com o tempo, mais e mais pessoas o liam. Mas a solidão nunca foi embora, nunca o abandonou, estava sempre lá, para ajudá-lo a escrever mais e mais.

  A cada palavra. A cada frase. A cada ponto. Ela estava lá.

  E ele descobriu que entre seus leitores tinha alguém especial. Muito especial. Alguém pela qual ele trocaria a sua solidão, companheira de anos, confiável e aconchegante, embora fria.
  Não, ele jamais alimentou qualquer sonho ou esperança com relação a isso. O melhor que ele poderia, mesmo, era escrever para ela. Isso já é até ousado demais, em vista de como ele se vê, e de como ele a vê. Nada além disso. Ele não merecia, ele jamais conseguiria. E por isso ele tinha que escrever. Era isso.


  Ele parou de escrever sem compromisso. Agora ele tinha por que escrever. Era divertido o desafio de escrever para aquela pessoa ler.
  Ele parou de escrever quando lhe desse na telha.
  Ele parou de se divertir com as palavras.
  Parou de escrever para si mesmo.
  A solidão continuava ali, mas já não era mais tão amiga quanto antes.

  A qualidade caiu. A motivação estava lá mas era incapaz de nutrir a falta de criatividade. A pressão bateu na porta. E falava, com autoridade:

  “Esse texto é fraco. Apague. Ninguém vai gostar. Esse assunto não é pertinente. Você não deve. Você não pode. Tem que melhorar. O estilo, tem que mudar o seu estilo de escrita. Jamais será bom nisso.”

  Provavelmente ela já desistiu de ler, e toda essa paranóia é infundada. Ninguém tem paciência de ler algo que perde continuamente sua qualidade. Ela nem desconfia ser a causadora de tudo. E também não tem culpa.

  Não importa. Ele vai continuar a escrever. É só o que sabe fazer mesmo. Precisa, no entanto, antes, reaprender a escrever para si mesmo. Esse é o segredo. Fazer por que quer, e não por que querem.

  Assim, sem ter essa intenção, ele tem chances de agradar. Se ele tentar agradar, ele não tem a mínima. 

Um comentário:

  1. Escrever é um dom. Encontrar as palavras certas, entre as quase 510.000 unidades léxicas reconhecidas pelo mestre Aurélio, alocá-las de modo que faça algum sentindo, transmitindo sentimentos, é complexo demais para simples seres humanos. Escrever é pra poucos. Escrever é para os especiais. Mas não podemos esquecer das expressões, afinal, é clichê, mas um olhar vale mais do que mil palavras...

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