quarta-feira, 30 de junho de 2010

A primeira guerra das humanidades

Já imaginou um cenário onde diferentes espécies, com niveis parecidos de intelectualidade, dividissem o mesmo espaço, cada qual com suas formas, culturas e interesses?

A idéia, digna de filmes como "O Senhor dos Aneis", não é apenas uma idéia. Ela já aconteceu, e envolveu a nossa espécie. Foi a muito tempo atrás, quando o Homo Sapiens conviveu com o Homo Neanderthalensis (até 28 mil anos atrás), o Homo Erectus (até 35 mil anos atrás), o Homo Florensis (até cerca de 20 mil anos atrás) e talvez até outras espécies de humanos, cujo as diferenças vão muito mais longe do que as existentes entre o Kobe Bryant e o Rainha Elizabeth. Mas o que houve com essas outras espécies? Como elas desapareceram? E por que justamente a nossa sobreviveu?

Provavelmente, por que uma espécie matou a outra. Sim, estamos falando de uma espécie de nazismo primitivo. Seja na competição por território, comida, ou simplesmente no "mano a mano", o mais provável é que o homo sapiens tenha sobrevivido por ter vencido essa competição. E agora, com vocês, uma pequena reprodução do que teria acontecido na primeira grande guerra da história...



Senhor, temos contato visual!
As coisas não iam bem na Africa daqueles tempos. Tinha gente demais. E comida de menos. Um grupo então tomou a ousada decisão de se mudar. Ir procurar um lugar melhor, de forma muito parecida com os bolivianos que vem para São Paulo hoje em dia. E lá foram eles, rumo ao norte. Europa
Imaginem agora o susto que tomaram ao chegar lá e encontrar aqueles seres bizarros. Pele clara, baixos, musculosos... Mas andando sobre dois pés e vestindo roupas. O mesmo deve ter acontecido com os Neanderthais. Afinal, o que eram aqueles seres altos, de pele escura e magrelos? Foi o primeiro caso de racismo.

Dormindo com o inimigo
Entretanto, não foi simplesmente ver um ao outro e correrem pra porrada. Eles até tentaram se socializar. Chegaram a fazer filhos (os primeiros mulatos?). Dividiram cultura. Mas as diferenças logo começaram a aflorar. Dentre todo o tipo de coisas, incluindo a organização de suas hierarquias, a disputa por comida era o principal fator para causar mau estar entre as duas espécies. Chegou a um ponto onde não havia mais como sustentar a amizade. A guerra estava lançada.

A mente por trás da guerra
Culturalmente e socialmente, as espécies possivelmente estavam no mesmo patamar, embora de formas paralelas. Seus cérebros certamente trabalhavam de forma diferente. Podiam comunicar-se através da fala (capacidade certamente melhor desenvolvida nos sapiens), criar ferramentas, e o culto aos mortos leva a crer que tivessem até algum tipo de religião. Haviam diferenças no entanto, como o fato da cultura dos sapiens ser machista, enquanto os Neanderthais viviam uma sociedade feminista. Neanderthais eram normalmente canhotos e cultuavam a menstruação. Seu calendário era baseado em 13 ciclos lunares, e isso era muito graças ao fato de ter hábitos mais noturnos. Logo, a noite, mulheres comandantes, canhotos, menstruação e o número 13 tornaram-se tabus entre os Sapiens, no que provavelmente foi o primeiro caso de censura da história. Alguns desses tabus resistem até hoje...

Corrida tecnológica
Por se tratar de uma era do gelo, apelidar o confronto de guerra fria é redundância. Mas, assim como a emblemática disputa entre Estados Unidas e Rússia, o combate seria definido pela capacidade tecnológica de cada sociedade. Muita calma nessa hora: Não estou falando de bombas nucleares ou caças invisíveis a radares. Estou falando de lanças, pedras e machados, além do controle do fogo (embora esse ainda não fosse usado com fins militares). E foi aqui onde a guerra começou a ganhar seus contornos. Por mais que os Neanderthais tivessem aprendido muito com os homo sapiens, e melhorado consideravelmente sua tecnologia, ainda havia algumas coisas que eles não sabiam fazer, ou simplesmente achavam ser desnecessário. Arremessar objetos. As lanças e outras armas dos Neanderthais eram feitas para serem fincadas, e não lançadas. Eles não as arremessavam, diferente do homo sapiens. Tá, fazer armas mais leves para poder lança-las não é nenhum segredo, então talvez eles não as usassem justamente por que eram mais fortes, e baseassem suas estratégias nos combates corpo-a-corpo. Se acreditarmos nisso, pode-se considerar que esse foi o primeiro “cheque-mate” da história, a primeira vez que uma estratégia militar prevaleceu sobre outra.

O melhor amigo do Sapiens. 
E havia um outro tipo de arma que os sapiens dominavam e que tirava o sono dos Neanderthais. Ou mantinha o sono dos sapiens. Lobos. Na verdade, lobos domesticados. Os ancestrais do cão doméstico. O homo sapiens já domesticava cães nessa época, e isso era uma bela vantagem. Primeiro na caça. Segundo, eram rápidos e mortais, sendo assim, poderiam ser usados em combate. Terceiro, e talvez o principal, tinham um belo olfato e audição. Era como ter os primeiros tanques de guerra equipados com sonar. E o melhor é que com eles por perto, ataques noturnos dos Neanderthais eram inúteis, já que os cães serviam como uma espécie de alarme. A vantagem definitiva.

A vitória
Além de tudo isso, o Sapiens ainda tinha a capacidade de comunicar-se melhor, o que numa situação de conflito pode ser determinante.
Perdendo na disputa por comida, perdendo no combate, os Neanderthais foram aos poucos desaparecendo. Empurrados mais e mais para o leste europeu, chegaram até o limite com o oceano. E lá os últimos neanderthalensis pereceram diante do Homo Sapiens. A inteligência levemente superior do homo sapiens prevaleceu sobre a força física do Neanderthal, naquela que se não foi a maior, foi a mais relevante das guerras envolvendo a humanidade. Afinal, se não tivéssemos triunfado, não estaríamos aqui hoje. .
É engraçado notar também como esse conflito de tanto tempo atrás já seguia os moldes dos conflitos de hoje. E como ele deixou alguns legados, algumas superstições e alguns tabus, como por exemplo um senso comum muito difundido entre os nerds, de que quanto mais forte fisicamente você é, menos inteligente você se torna. De onde você acha que veio esse pensamento?
Enfim. Ser humano. Não deixando pedra sobre pedra, desde os tempos da pedra.

Em tempo: O texto não tem pretensão de ser uma recriação fiel e nem deve ser usado nos seus trabalhos de escola, sob o forte risco de ganhar uma nota bem ao estilo neanderthal. 

3 comentários:

  1. Adorei o post!
    Muito boa a idéia sobre os lobos.
    Enquanto estava lendo fiquei pensando "como eles resistiam a ataques noturnos?".
    Primeira arma que definiu uma guerra!
    E era uma arma biológica, olha como eles(ou nós?) eramos avançados! XD

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  2. "quanto mais forte fisicamente você é, menos inteligente você se torna"

    viva os nerds e magrelos???

    huahuauhahuuhhuahu

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  3. Pelo que andei lendo, as festas de 15 anos das meninas faziam parte da cultura Neandertal, não só das meninas mas dos adolescentes. Ao completarem 15 anos eles já eram considerados adultos, os meninos partiam para as caças e as meninas recebiam uma festa para celebrar sua fertilidade (ao que parece a idade da menarca das jovens Neandertais era por volta dos 15 anos), havia celebração pois a menina já era vista como mulher portanto já podia ter filhos, o que era motivo de orgulho para eles.
    Até hoje comemora-se os 15 anos das meninas, mas não há sentido algum nas comemorações atuais, aprendemos com os Neandertais, temos um pouco deles tanto na cultura quanto nos genes.
    E aqueles humanos do primeiro filme da era do gelo parecem ser Neandertais. :D
    Gostei muito da postagem!

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