sábado, 12 de junho de 2010

Sobre meninos, motos e filhos

  Saúde pública. Está uma bagunça. Todos sabemos como está. Eu que trabalho lá dentro então, sei melhor do que ninguém o que acontece por trás dos panos, ou mesmo na frente deles, que seja. No dia a dia numa unidade de saúde, pude presenciar uma série de coisas um tanto quanto diferentes do habitual. Algumas engraçadas, outras tristes, outras com um pouco de cada. Mas, inegavelmente, boas histórias.

  Por conta disso, resolvi trazer algumas dessas histórias aqui no blog. Todas reais, presenciadas, ou até mesmo vividas por mim mesmo. Espero que gostem. Ai vai a primeira: Sobre meninos, motos e filhos.

  O dia parecia comum. O sol brilhando forte, sem muitas nuvens. Pessoas apressadas fazendo seus afazeres na sempre apressada SP. E eu, como sempre, entediado no serviço. Não com muito motivo, já que o movimento, como sempre, era grande lá no posto de saúde. Mas isso é o normal, e o que é normal demais entedia. Mas o tédio não duraria muito.

 Aqueles meninos entraram, um deles completamente desfigurado. Destroçado, parecia estar voltando da guerra mesmo. Feridas por todo o corpo, roupas rasgadas e sujas de sangue, cabelo completamente coberto por um misto de terra e lama.. Seus dentes... Dentes? 

 Por mais que fosse uma unidade básica, e a população saber que casos assim nós encaminhamos para o hospital mesmo, não chega a ser raros os casos onde pessoas entram lá desesperados por socorro. Mas esse estava um pouco diferente. Sorriso. O menino não parava de sorrir.

 Sem muito o que fazer, chamei o primeiro profissional de saúde que encontrei, uma enfermeira. Como o rapaz, por mais que estivesse detonado, conseguia ficar em pé e ainda sorria, ela iniciou o "atendimento" ali mesmo, enquanto outra pessoa foi avisar a algum médico. Com perguntas obvias, como o esperado "o que houve?", ela evidenciou a parte estranha de todo esse nhenhenhém que escrevi aqui. Deixe que o próprio menino explique:





- Sabe o que é? Eu descobri hoje que a minha namorada está grávida, e então eu fiquei feliz né? Ai eu peguei a moto do meu pai e sai pra comemorar!


- Quantos anos tem sua namorada? E você?


- Eu tenho 15, e ela 14 anos
- Seu pai sabe que você pegou a moto?
- Nem pensar

  Notaram o que tem de errado ai? Vamos recaptular: O menino de 15 anos engravida uma menina de 14, fica feliz, pega uma moto escondido, sai correndo pelas ruas e quase morre numa queda. 

  Perguntamos pros amigos dele que o acompanhavam o que achavam disso. A resposta? Ele deu azar!

  Ta, eu não quero ser o dono da verdade, eu não sou politicamente correto, nunca fui e deus me livre de um dia ser. Mas eu sempre tive uma certa noção, por minima que fosse, que algumas coisas não tem como dar certo, por mais que na hora pareça uma ideia divertida.


  Certamente, no lugar dele, eu não estaria comemorando muita coisa. E eu saberia que aquilo foi muito, muito mais que azar. Foi culpa minha.

  Mas deixando os discursos de moral de lado, o menino totalmente inconsequente vida louca engajou-se numa conversa ainda mais maluca, sobre o que pensava sobre o futuro.

  Com um sorriso no rosto, descrevia as metas da sua vida:



- Ter um filho (ok)
- Casar-se (quase lá)
- Comprar uma casa
- Comprar um carro
- Se mudar (veja só, nosso bairro não é bom o bastante para ele!)
- Viajar para o Nordeste 

  Ele afirmava com convicção que antes dos 20 anos seria capaz de cumprir tudo. O motivo? Logo mais ele seria um jogador de futebol. Mas se não desse certo, tinha um plano b, na sua mente tão rentável e quase tão nobre quanto: "Ah, posso virar bandido também!". 

  A imagem de um menino sem perspectiva de vida, que pensa que as únicas maneiras de se dar bem são jogando bola ou roubando. Trabalhar duro e estudar? Nem pensar. Isso não dá futuro.


  Isso aconteceu mais ou menos um ano atrás. ele não casou com a menina. O tal bebê não nasceu, foi abortado. Ele ainda anda com a moto do pai pra lá e pra cá, agora com o aval do dono da motoca. Não joga mais futebol, o que me faz pensar sobre qual carreira ele pensa em seguir. E assim o mundo gira.

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