quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Evolução Convergente: Iguais, mas diferentes


  Nessa vida, nada se cria, tudo se copia. Essa máxima está bem representada nos nosso cotidiano – basta ligar a TV por 5 minutos para ver com seus próprios olhos. É uma estratégia que, se não é lá das mais elegantes, é uma das mais eficientes: Por que se dar ao trabalho de criar algo novo, quando você pode simplesmente imitar algo já consagrado?

Tendo em vista a eficiência dessa prática, não é surpresa que não somos os únicos a adota-la. A mãe natureza, na forma da evolução das espécies, vem adotando, inconscientemente (ou não...) essa técnica desde que o mundo é mundo: Aproveitando boas idéias e fazendo modificações para melhorá-las ao longo das gerações.

Isso é algo de se esperar, obviamente, entre descendentes de uma mesma espécie: Aproveitar o que de melhor seus pais tinham. Entre espécies com grau de parentesco próximo, idem: Ambas “aproveitam” as características de seus ancestrais comuns que mais lhe serão úteis. Mas e quando falamos de espécies que estão muito longe uma da outra na linhagem evolutiva, algo como um mamífero e um crustáceo, e mesmo assim, tem habilidades, morfologia, hábitos ou qualquer outra coisa surpreendentemente parecidos? Como isso acontece? E por que acontece? É o que nós veremos agora.


Somos todos irmãos

A frase, bonita e filosófica, nada mais é do que uma verdade, ou quase. Por mais que você seja diferente de um pinheiro, se voltarmos no tempo até o momento certo (e isso é MUITO tempo atrás), encontraremos um ancestral em comum para você e o pinheiro, mesmo que hoje ambos pertençam a reinos diferentes (um pertence ao reino animal e o outro ao reino vegetal). O mesmo pode ser feito com quaisquer espécie viva no planeta: Todos, em algum ponto, tiveram um único ancestral em comum. Pelo menos enquanto presumirmos que a teoria da evolução é verdadeira.

Indo mais além, para espécies mais próximas na linha de evolução, podemos identificar um design em comum no “projeto” delas. Por exemplo: Se você olhar o esqueleto de um Morcego e o de um Ser Humano, notará que a asa do Morcego nada mais é do que uma mão humana adaptada (e não um braço, como se poderia supor). Poderá ver os 5 dedos, apenas com formas diferentes. Assim é com todos os mamíferos: Os ossos, com raras excessões, são os mesmos, dispostos na mesma ordem, variando apenas o formato. Na verdade, há uma estrutura básica obedecida pelos vertebrados em geral, sejam eles aves, répteis ou mamíferos.

E isso prova o quanto a evolução e a seleção natural podem favorecer formas de vida totalmente diferentes, apresentando no entanto um projeto similar. Golfinhos, Humanos e Morcegos são perfeitos para viver, respectivamente, na água, terra e ar, seguindo todos o mesmo projeto básico, que foi alterado durante milhões de anos de forma a deixá-los melhor preparados para viver onde vivem e como vivem. De acordo com seu ambiente. E é aqui que eu queria chegar: A evolução também pode fazer o caminho inverso, e adaptar estruturas diferentes para a mesma situação.

Em Roma, haja como os Romanos...

Como sabemos, a evolução acontece de acordo com uma relação entre pressões ambientais e mutações aleatórias. Quando uma mutação é benéfica, ela tem mais chances de ser passada adiante, já que o seu portador poderá viver melhor. Quando uma mutação não é benéfica, acontece o contrário, já que o infeliz animal terá mais chances de morrer logo.

Como é o ambiente o responsável por essa seleção do que serve e o que não serve, então, parece lógico pensarmos que ambientes parecidos serão propícios a mutações parecidas. E é isso o que, na prática, acontece.

Voltemos aos Golfinhos para dar mais clareza a situação. São mamíferos e seus antepassados viveram em terra firme. Portanto, tinham pernas e pés, como os outros mamíferos. No entanto, conforme foram adquirindo hábitos mais aquáticos, as pernas e pés foram ficando cada vez menos úteis. Afinal de contas, eles são ótimos para andar na terra, mas não são muito úteis em mar aberto. Peixes sempre viveram na água, e portanto, sua evolução os levou de forma a desenvolverem membros que se dão melhor na água, como nadadeiras.

Com isso, conforme os membros dos Golfinhos foram ficando mais adaptados para viver na água, consequentemente, eles acabaram ficando parecidos com nadadeiras, assim como sua calda também seguiu o modelo da cauda dos Peixes, e os membros posteriores perderam a função, diminuindo cada vez mais até o ponto de ficaram apenas vestígios deles no esqueleto. Ou seja, no final, os Golfinhos ficaram fisicamente bem parecidos com os peixes, simplesmente porque se tornaram especialistas em viver no mesmo lugar que os peixes. A mesma coisa aconteceu com uma porção de répteis marinhos pré-históricos, cujo "design" era muito semelhante aos peixes e golfinhos atuais, mas que certamente evoluiu de forma independente. E isso é o que chamamos de evolução convergente.

E se não houverem romanos?

Outra situação, um pouco diferente, mas que leva aos mesmos resultados, é quando simplesmente não há competição em algum nicho ecológico, e algum animal, atraído pelas facilidades de uma vida sem concorrentes naturais, se adapta para ocupar esse lugar na cadeia alimentar. Com isso, muitas vezes eles acabam por “copiar” características de outros animais em lugares completamente diferentes do mundo. Isso pode fazer animais com parentesco bem distante, que vivem separados por distâncias absurdas (ou mesmo serem de épocas completamente diferentes), ficarem fisicamente tão parecidos que parecem ser parentes próximos. Exemplos de evolução convergente ocasionada dessa forma também não faltam.
Condor: Parece uma garça ou um abutre? 


Os Urubus e os Condores são aves voadoras que se alimentam de carniça, vivem na América do Sul e aqui ocupam esse nicho ecológico. Eles são fisicamente muito parecidos com os Abutres, que não são encontrados na América do Sul, tem hábitos também parecidos e vivem em ambientes parecidos. Numa primeira análise, seria muito fácil categoriza-los como parentes. No entanto, as semelhanças param por ai. Os Urubus e os Condores pertencem a uma classe de aves na qual podemos categorizar também as graciosas Garças, por exemplo. Enquanto isso, o Abutre fica em uma classe onde estão inclusos os Falcões e as Águias. A única coisa que eles tem em comum é o próprio fato de serem aves. O grau de parentesco de ambos não é diferente, por exemplo, do seu grau de parentesco com uma Zebra. Ou seja, não é dos maiores...

Ainda no exemplo das aves, podemos citar o Pinguim e o Airo. Um vive no pólo sul e o outro no pólo norte. Ambos são muito parecidos até fisicamente, e uma pessoa desavisada poderia pensar que tratam-se do mesmo animal, talvez, no máximo, sub-espécies de um mesmo animal. No entanto, novamente, são aves diferentes, que evoluíram independentemente, para ocupar um mesmo espaço vago na cadeia alimentar, nesse caso, o meio aquático.

Falso Dentes de Sabre
Para sairmos um pouco das aves e dos animais modernos, há o caso dos Nimravídeos, mais conhecidos como “Falsos Dentes de Sabre”. Esses animais eram extremamente parecidos com os Tigres Dentes de Sabre, felinos extintos famosos por suas grandes presas. A semelhança é tão grande que é quase automático pensarmos que são animais da mesma classe. No entanto, não são. Os Nimravídeos sequer são felinos, pertencendo a uma outra classe de mamíferos já extinta. Um caso muito parecido com o das Hienas, que evoluíram de forma a se parecerem com os caninos embora estejam mais próximos dos felinos na linha evolutiva.

Mas até aqui, você pode argumentar, que estamos pegando leve. Afinal, são aves, não estão tão longe assim na linhagem evolutiva. O mesmo vale para os mamíferos citados acima. Se você quer algo realmente drástico, também temos um exemplo do tipo. Veja um gigantesco e extinto Argentinossauro, o dinossauro mais alto já descoberto até hoje (que era muito mais alto que uma Girafa). Agora compare-o com uma Girafa, o mais alto da atualidade. Consegue ver? O pescoço de ambos os animais é extremamente longo, e eles o utilizam para comer o que está no topo das árvores, entre outras funções. Um é um dinossauro que viveu à milhões de anos atrás. O outro, um mamífero da atualidade. Ou seja, estamos falando de animais que realmente chegaram a mesma solução para obter a mesma vantagem e ocupar um nicho ecológico vago, de forma totalmente independente.

Satisfeito com o exemplo? E tem muitos outros semelhantes, como o chifre na ponta do nariz de um Triceratops, do Rinoceronte, e um monte de animais, extintos ou não, que andaram pela Terra ao longo de sua história, ou ainda as asas dos Morcegos e as asas dos Pterodátilos, e uma infinidade de outros exemplos da mesma natureza...

Olha o que eu sei fazer...

Outra situação que as vezes acontece é os dois animais desenvolverem o mesmo sistema independentemente, mas usá-los de forma diferente, de acordo com sua necessidade.
Por exemplo, o Tatu-Bola é um mamífero que tem uma carapaça bem resistente, a qual ele usa como forma de defesa. Ao menor sinal de perigo, ele se enrola de forma a assumir o formato de uma bola e ficar protegido pela sua armadura. O Tatuzinho de Jardim, também conhecido como Bicho de Conta, Tatu-Bolinha, Tatuzinho da Terra e outros mil nomes, é um crustáceo (mesma família das lagostas, por exemplo), que vive em terra firme. Ele desenvolveu um mecanismo de defesa muito parecido com o do Tatu-Bola, que é assumir o formato de bola e usar sua armadura externa para proteger-se dos seus inimigos.

Mas, deixando de lado os pormenores como o que exatamente é a armadura cada um desses animais, que são totalmente diferentes, o Tatu de Jardim ainda achou outra utilidade para essa capacidade: Ele, como um crustáceo, precisa manter um alto grau de umidade relativa no corpo para sobreviver. Ele não pode, sob nenhuma hipótese, desidratar-se. Na terra firme isso é muito mais difícil do que para os seus parentes que moram na água. Em certos horários do dia, as coisas podem ficar bem quentes, e a umidade simplesmente evaporar. Qual a solução? Ele se fecha em sua armadura, de forma a evitar que a umidade escape. Uma utilização alternativa para uma mesma capacidade.

Assim funciona a evolução: Ela não segue um projeto fixo. Aliás, não segue projeto nenhum. Apenas acontece, de acordo com as oportunidades. E se as oportunidades se mostrarem iguais para diferentes animais, nada os impede de aproveitá-las, cada um a sua maneira, mas de formas parecidas. Não podem ser taxadas como coincidências, e sim como consequências do grande e único objetivo de toda espécie: Priorizar a continuidade da vida. E quer objetivo melhor?  

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