terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Levegh: O Quase Mito de Le Mans


  Nesse mundo há pessoas que vivem sob todas as motivações possíveis, e até aqueles que vivem sob ausência de motivações. Antes de começar essa postagem, quero destacar rapidamente dois tipos de pessoas: Aquelas pessoas que vivem apenas para tentar ganhar mais e mais dinheiro.
E aquelas que vivem para tentar algo que lhes dê algum tipo de imortalidade.

Pierre Levegh era do segundo tipo. Até porque, dinheiro ele tinha. Mas muito mais do que dinheiro, ele tinha ambição. Uma ambição que passava pelas 24 Horas de Le Mans, a corrida mais tradicional do automobilismo mundial. Ele queria imortalizar seu nome na prova para sempre, e estava disposto a morrer por isso se fosse necessário. E ficou a míseros 40 minutos de conseguir...

O que Pierre tinha em mente? O que aconteceu com ele? Espere um pouco. Não vamos pular etapas. Vamos começar a história pelo começo...


Faça chuva ou faça sol

As 24 Horas de Le Mans respiram tradição. A corrida é disputada desde 1923 e representa um sonho para qualquer piloto e montadora: Para os pilotos, vencer em Le Mans é uma prova incontestável de seu talento e sua capacidade. Para as fabricantes de automóvel, vencer em Le Mans é mostrar ao mundo como seus carros são confiáveis, capazes de passar literalmente um dia inteiro correndo no limite dos seus motores...

A corrida já mudou de nome e até o traçado da lendária pista algumas vezes, mas sempre mantendo as 24 horas de duração. Para exemplificar uma mudança, no começo, a largada era feita com os carros emparelhados um do lado do outro, em um lado da pista, e os pilotos do outro lado. Então os pilotos tinham que correr, ligar o carro, e sair. Era a chamada “Largada Le Mans”. Em alguns anos, a prova também serviu como etapa de alguns campeonatos de carros de turismo, mas mesmo quando é um evento isolado, não vinculada a campeonato nenhum (como é, atualmente), é considerada um dos pontos altos do automobilismo mundial.

Obviamente, pela duração da corrida, apenas os carros tem que aguentar esse martírio todo: Os pilotos de cada equipe / carro se revezam, depois de algumas horas, um piloto desce e outro assume, ou seja, para vencer lá não basta ser bom, tem que ter uma boa equipe também...

Pierre Levegh correu em Le Mans pela primeira vez em 1951. Conseguiu um ótimo resultado, especialmente para um estreante, um 4° lugar, que o fez decidir: Ganharia a próxima edição da corrida, no ano seguinte. Comprou um carro novo, e passou o ano inteiro investindo no mesmo e se preparando, não economizando nenhum centavo do que julgava necessário, de forma a estar pronto para vencer, inevitavelmente, em Le Mans na segunda tentativa. Só não havia dito como pretendia vencer...

Louco ou Gênio?

Naquele tempo, não havia limite para delimitar o tempo que cada piloto podia ficar dentro do carro. Com isso em mente, Levegh foi correndo... Correndo... Correndo... Fazia suas paradas e tudo parecia correr de acordo com o esperado. Até que depois de algum tempo, em uma das paradas, lhe informaram que ele estava na liderança. Ele ainda não havia entregue o carro ao seu companheiro de equipe, já dirigia à algumas horas e estava visivelmente esgotado. Mas ele queria continuar, sozinho. Se recusou a entregar o carro e continuou correndo, hora após hora...

O dia já havia raiado, já faziam mais de 16 horas que ele estava correndo, já havia dado algumas voltas em todos os adversários, mas ele não queria sair do carro. A cada parada ficava mais óbvio o estado deplorável que se encontrava: Aparência assustadoramente cansada, que o deixava extremamente parecido com um zumbi, e expressão vaga, que deixava claro que ele já não estava mais pensando, e sim, já havia entrado em um estado que tudo era praticamente automático. Um verdadeiro morto-vivo pilotando o carro. Mas um morto-vivo pronto para cravar seu nome na história para sempre.

Tão perto, mas tão longe...

A corrida prosseguia, ele continuava a dar voltas nos seus adversários, continuava a deixar claro na sua fisionomia que estava mais e mais detonado. Naquele ponto, o carro número 8 de Pierre era a grande atração da corrida, e todo o resto já haviam se tornado meros coadjuvantes da história sendo escrita ali, diante de todos. Ninguém mais ousava pedir que ele entregasse o carro: Pierre, Francês, dirigindo um carro Francês, entraria para a história a fazer algo jamais visto em Le Mans, na França! Aquilo não deveria ser impedido por ninguém. Não poderia ser impedido por ninguém. Ou poderia?

Poderia. E a única pessoa que poderia para-lo naquele momento era... Ele mesmo. Faltavam apenas 40 minutos. Ele já havia corrido 23 horas e mais 20 minutos, sem parar, e estava prestes a alcançar a glória, um feito inigualável... Quando reduziu errado uma marcha e o carro quebrou. A multidão assistia atônita o carro que parecia imparável ir, aos poucos, parando. Se fez silêncio nas arquibancadas. Pierre desceu, transtornado, e começou a caminhar a pé para os boxes. A multidão começou a criticá-lo e vaiá-lo. Era o fim do sonho...

Ironia do destino

Nos anos seguintes, Levegh voltou a correr em Le Mans, mas da forma tradicional, dividindo a responsabilidade com os outros pilotos. Não foi bem. Em 1955, ele novamente e definitivamente entraria para a história da competição. De forma trágica.

Tão logo começa a corrida, outros dois pilotos, Fangio e Mike Hawthorn, começam a protagonizar um espetáculo incrível, uma disputa que parecia que não acabaria tão cedo. Eram por volta das 18:30, quando Hawthorn surgiu na reta, passou por um retardatário, Lance Maklin, e resolveu entrar nos boxes (que naquela época não tinham nenhum tipo de separação ou proteção). Freia de repente, assustando Maklin, que, no instinto, joga seu carro para a esquerda. No momento exato em que Levegh passava, a cerca de 250km/h. Sem chance de qualquer reação...

O carro de Levegh sobiu encima do carro de Maklin, voou, bateu numa mureta e, aos pedaços e em chamas, foi parar no meio da multidão, no maior acidente da história do automobilismo. Levegh foi um dos 83 mortos no acidente.

Curiosamente, a prova não foi interrompida: Os organizadores sabiam que se a prova fosse encerrada, todas as pessoas sairiam do autódromo ao mesmo tempo e isso causaria muito transito nos arredores, o que era a última coisa que eles queriam, uma vez que o fluxo de ambulâncias levando feridos era intenso.

Hawthorn venceu a corrida, e foi considerado inocente do acidente. Levegh estava imortalizado, seu nome seria lembrado para sempre. Pela tragédia, e não por uma glória que ele esteve tão perto de conquistar. Uma pena. E você ainda achava que o Rubens Barrichello era azarado, hein?

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