sábado, 5 de fevereiro de 2011

Onde estão nossos campeões?


  Quando foi a última vez que você, caro leitor, viu um piloto nascido no Brasil ser Campeão Mundial de Fórmula 1? Faz tempo. Muito tempo. Se a sua idade estiver situada nos 22 anos ou menos, provavelmente, sua resposta a essa pergunta seria algo em torno do “nunca vi isso acontecer”, até porque, mesmo os que de fato viram, provavelmente tem a última conquista de Ayrton Senna gravada como uma lembrança absolutamente remota em suas mentes.

Até acontecer a fatalidade envolvendo Senna, vinhamos de uma safra vitoriosa na Fórmula 1. Quando Senna começou a ganhar seus títulos, ainda vivíamos a era de Nelson Piquet, e tivemos o privilégio de ver ambos disputando as conquistas um contra o outro. Senna encontrou um Piquet já veterano na F-1, e manteve o Brasil no topo depois que Piquet, com Senna na disputa, ganhou seu último campeonato. Piquet, por sua vez, foi o responsável por continuar o legado deixado por Emerson Fittipaldi, o primeiro dos brasileiros a conseguir sucesso na categoria mais importante do automobilismo mundial.

E depois de Senna... Uma lacuna. Lá se vão quase duas décadas sem um único título, um único campeão. Mas qual será o problema? Não surgiu nenhum talento desde então capaz de vencer o campeonato? O Brasil não tem mais pilotos como antigamente? Estaríamos em uma fase anormal de falta de pilotos capazes de tal feito, ou a “fase” (que durou muitas décadas) dos pilotos capazes é que foi uma exceção? Perguntas difíceis de responder. Para tentarmos entender o que acontece, e o que mudar, parece haver uma única saída lógica: apontarmos as principais causas (aparentes) pelas quais os títulos não vieram. E é isso que faremos a seguir.


Ó céus, ó vida, ó azar

Em primeiro lugar, por mais que isso pareça desculpa, ou pior, piada pronta, é difícil negar que os pilotos brasileiros nas últimas décadas, especialmente aqueles que poderiam de fato pleitar o título (nomeadamente, Barrichello e Massa) sofreram com uma implacável má sorte em momentos cruciais da carreira.

Muita calma nesse momento. Diferente dos humoristas de plantão, eu não estou atribuindo unicamente ao azar todas as quebras e problemas técnicos que Barrichello enfrentou em seus anos de Ferrari. No caso específico dele, isso foge um pouco do azar, e é um assunto para mais tarde. O caso de Rubinho é algo que muita gente esqueceu ou não dá a devida importância, talvez pelo “azar” de ter acontecido em um fim de semana onde houve algo ainda mais trágico para se falar, talvez por ser algo que se baseia muito em uma previsão otimista, ou talvez, simplesmente, por ser algo que não renda boas piadas: Tamburello.

Esse é o nome da curva onde Ayrton Senna sofreu seu acidente fatal. Naquele final de semana houveram 3 acidentes gravíssimos, sendo que 2 deles terminaram em morte, e o terceiro em “meia morte”. E vou explicar apenas a meia morte aqui: O indivíduo que bateu na Tamburello nos treinos anteriores a corrida, diferente de Senna, sobreviveu. O piloto que vivia naquele indivíduo, por outro lado, não teve a mesma sorte. Ainda não entendeu? Serei mais claro. Rubens Barrichello era visto como um dos mais promissores pilotos da nova geração. Não era, nem de longe, exagero compará-lo ao próprio Senna, que por sinal era o seu mentor. Naquele treino, Rubens perdeu o controle e bateu forte na maldita curva que também matou Senna. O acidente foi muito feio e violento, aliás, as imagens impressionam bem mais do que o próprio acidente de Senna. Mas Barrichello saiu vivo dessa. Entretanto, o Rubinho aspirante a sucessor de Senna nunca mais deu as caras...

Desde então, comparativamente, Rubinho passou a andar muito mais devagar do que andava naquela época. Jamais foi o mesmo. Seu estilo mudou, perdeu muito da agressividade da época, perdeu ousadia, tornou-se apenas um bom piloto – mesmo sendo um gênio em potencial.

Se Barrichello não tivesse batido aquele dia, ele poderia ter evitado a supremacia Schumacher? Não sei. Mas, muito provavelmente, a vida do alemão teria sido muito mais complicada. Poderíamos, com sorte, ter presenciado duelos épicos entre ambos, mesmo na Ferrari, uma espécie de Mansell x Piquet moderno, ou mesmo, Prost x Senna. Mas como não são suposições que fazem a história, infelizmente para Barrichello, jamais saberemos o que poderia ter acontecido.

Felipe Massa, embora tenha também uma história parecida a de Barrichello para contar, que abordarei em instantes, pode sim, reclamar de ser injustiçado pelos erros de sua equipe. Na fatídica temporada de 2008, onde Massa chegou a cruzar a linha de chegada como campeão, apenas para ver, segundos depois, Lewis Hamilton conseguir o seu dramático título na última curva, Massa já teria desembarcado no Brasil na condição de campeão, ou no mínimo com chances ainda maiores de conquistar o título, se não fosse pela completa incompetência da Ferrari.

Massa naquele ano conquistou a duras penas o posto de piloto número 1 da equipe (e como sabemos, na F-1 isso tem um peso enorme). Era o carro dele que não poderia conter erros, falhas, descuidos, deveria ser impecável, uma vez que seus responsáveis eram os melhores mecânicos, os melhores engenheiros e tudo o mais. Não foi bem assim: Em várias corridas, Massa perdeu pontos cruciais – que fizeram muita falta – por erros infantis da Ferrari. Erros dignos de equipe pequena. Em alguns casos, nem delas. Comprometeu, de fato, o campeonato que tinha tudo para terminar nas mãos de Felipe (e por muito muito pouco não terminou, apesar de tudo isso).

Para piorar, mais tarde ele ainda sofreu um acidente grave, quando foi atingido por uma peça que foi atirada pelo carro de – veja só – Rubens Barrichello. Afastado por um tempo, Massa ainda não conseguiu voltar a correr como antes desde que retornou. E agora a competição pelo primeiro carro de sua equipe é muito feroz, com o badalado Bi-Campeão Fernando Alonso. E falando em competição...

Precisamos mesmo de um novo Senna?

Desde que Senna morreu, sua imagem emaculou-se como a imagem do piloto brasileiro perfeito, o grande exemplo a ser seguido, a representação do automobilismo brasileiro em pessoa. Nada contra isso, o problema é que a imagem do Senna depois do acidente é diferente (e muito) da imagem do Senna vivo. A imagem que eternizou-se diz respeito ao Senna calmo, concentrado, vitorioso, bom moço, educado, que aparecia no programa da Xuxa pra fazer a alegria das crianças as vezes, era feliz e sorridente tal qual o personagem Seninha. Esse não era o Senna. Era apenas a melhor face dele. Havia uma outra: Fechado, calado, obsessivo com a vitória, capaz de tomar atitudes drásticas, arriscadas e por vezes não muito éticas (Prost que o diga), quando provocado da maneira certa.

O "piloto dos sonhos"
Ele não era um santo e não tinha sangue de barata. Também não era um homem simpático que adorava aparecer na mídia, e sim o contrário: A mídia adorava o Senna, e o perseguia onde quer que fosse. E as vezes tomavam umas patadas, e até o tiravam do sério, obrigando-o inclusive a fazer greve de silêncio em um episódio. Esse era o Senna. O negócio dele era correr e vencer as corridas. É totalmente inútil comparar personalidades de pessoas distintas, uma vez que pessoas são únicas, mas podemos exemplificar dizendo que Senna tinha uma personalidade mais próxima do Fernando Alonso do que do próprio Felipe Massa.

E é ai que mora o problema: De fora, a impressão que fica é que os pilotos brasileiros seguem o exemplo do Senna. Politicamente correto, educado, limitando-se a ser o cara bonzão que ganha de todo mundo na habilidade, sem precisar de mais nada. Desculpem-me senhores, mas esse é o Speed Racer, e não o grande Ayrton Senna. O piloto brasileiro sabia brigar quando era preciso, sabia bater o pé quando era preciso, e não era submisso a ninguém.
Diferente dos pilotos brasileiros da atualidade, que as vezes pecam pela prudência excessiva. E ai voltamos para Rubens Barrichello: Por que as falhas da Ferrari podem ser consideradas azar no caso do Felipe Massa, mas não no caso dele? Simples: As falhas da Ferrari aconteciam com Felipe quando ele era o candidato ao título. Ou seja, eram azar mesmo, já que para a equipe Massa era o piloto mais importante. As falhas que aconteciam com Barrichello eram falhas de segundo piloto: Aquele que corre com o pior carro, tem os piores mecânicos, etc, etc, etc.

Barrichello poderia ter saído da Ferrari e tentado a sorte em uma equipe onde seria o primeiro piloto. Poderia mesmo assim não ter ganho, mas suas chances seriam maiores, certamente. No mínimo, ele poderia ter resistido mais a supremacia de Schumacher. Veja: Nelson Piquet escondia os acertos do seu carro para que seu companheiro de equipe e rival, Nigell Mansell, não tirasse proveito delas. Barrichello, por outro lado, repassava tudo que descobria a Schumacher. Piloto por piloto, carro por carro, o piloto do carro número 1 tem uma vantagem enorme, especialmente se o piloto do carro número 2 não reservar nenhuma carta na manga. Deu no que deu.

Falando em Piquet, a família Piquet é o exemplo perfeito para exemplificarmos o que é atitude de quem quer ser campeão, com o que é covardia de um piloto submisso: Piquet pai era polêmico. Falava o que pensava. Não abaixava a cabeça pra diretor, companheiro de equipe, chefe, ninguém. Fazia o que tinha que ser feito, mesmo que, em sua cabeça, isso significasse dar um soco na cara do Salasar (coisa que ele fez MESMO). Não era um exemplo de conduta, mas conquistou 3 títulos mundiais – todos com méritos – agindo dessa maneira.

Faltou a Nelsinho a ousadia do pai?
Piquet filho, por outro lado, em sua curta carreira na Fórmula 1, ficou marcado por um escândalo, onde executou uma ação totalmente anti-ética para favorecer um companheiro de equipe. Ou seja, submeteu-se ao risco de sujar seu nome para sempre na categoria (o que de fato aconteceu), apenas para obedecer ordens da equipe e garantir os louros da glória ao seu companheiro de equipe, o que na F-1 muitas vezes pode (e deve) ser traduzido como rival.

A diferença entre o politicamente correto vitorioso do pai para a trapaça burra do filho fica evidente ao considerarmos que foi o próprio Piquet pai um dos primeiros a denunciar o escândalo. Faltou ao filho um pouco da personalidade do pai, ou no mínimo, um pouco da ambição do pai, algo que parece sobrar, pelo menos por enquanto, no talentoso Niko Rossberg, filho do campeão Keke Rossberg, para compararmos rapidamente com um piloto de trajetória parecida.

Felipe Massa, embora a mídia tenha feito uma tempestade em copo d'água enorme com o episódio, entra na condição de submisso de uma forma mais branda, por enquanto. Deixar o piloto número 1 da sua equipe passar, como fez Massa, é uma atitude normal, sim. Contando que ele esteja na briga pelo título e você não.

Isso é uma situação isolada do que aconteceu com Barrichello, por exemplo, que passou anos já iniciando a temporada sabendo (e se não sabia, pode ser chamado de ingênuo ou sonhador) que seria o escudeiro de Schumacher e nada mais que isso. Sua situação de bom moço, politicamente correto e conformado com seu destino é tão clara, que recentemente, já com ambos correndo em evidente final de carreira (aliás, o alemão vive um pós final de carreira), Rubinho, após uma corrida em que fechou a porta para o alemão em uma manobra muito bem executada, declarou, com um orgulho evidente no rosto, que não deixa mais Michael Schumacher ultrapassá-lo. Essa foi tirada como uma das frases mais marcantes da carreira de Barrichello. E isso, senhoras e senhores, é deprimente, já que não deixar que outra pessoa, agora de outra equipe, te ultrapasse, é justamente o que se espera de um piloto de F-1, e não algo para se gabar na Veja ou na Rede Globo.

Deixar o cara passar em um ano em que você foi mal e não tem mais chances de título é uma coisa, e esperamos que seja apenas isso que tenha acontecido com Massa. Esperamos que ele se recupere, encare de frente Alonso e, quando ambos estiverem disputando o título, ele não abaixe a cabeça e tenha a ambição de ser o melhor, ambição que levou Senna e Piquet ao topo no passado. E não que ele já comece o ano estando satisfeito em ser parte da equipe, como Barrichello fazia na Ferrari.

E esperar, principalmente, que a nova geração, que conta inclusive com um legítimo Senna - que deveria (mas dificilmente vai) ser salvo de quaisquer comparação com seu tio, que foi um caso único na história – não tente se espelhar tanto nesse jeito pacato de ser. Que tenhamos pilotos com o espirito guerreiro de Piquet ou Alonso, capazes de brigar com o Céu e a Terra para conseguirem seu lugar ao sol. Ou, no mínimo, alguém tão motivado quanto era Damon Hill. Já estaria de bom tamanho. Esperar ainda que o ciclo de batidas que deixam pilotos traumatizados para sempre tenha se encerrado. Esperar que todos os outros fatores que não foram citados se encerrem.

E principalmente, que não tentem surgir novos Fittipaldi's, Piquet's ou Senna's. E sim, que surja alguém com capacidade e ambição de escrever seu próprio nome na história, para que possamos esperar seu sucessor...

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