sábado, 30 de julho de 2011

Apollo 13

 Era uma vez 8 astronautas. Naquela época, aliás, eles ainda não eram astronautas, mas haviam sido aprovados pelo programa espacial e seriam os primeiros astronautas americanos, o que naturalmente seria uma honraria sem tamanho. Pois bem.

Foram levados a uma sala fechada, onde conversaram com um dos principais médicos da NASA, encarregado de dar-lhes as boas vindas de uma forma bastante bombástica. Literalmente.

Após um breve discurso, ele tirou do bolso uma granada, puxou o pino, e saiu rapidamente da sala, fechando a porta por fora, deixando os 8 astronautas presos lá dentro com a granada prestes a explodir. Entre eles, 7 ficaram sentados, olhando para a granada e dando risada. Apenas um levantou-se em desespero, e correu para trás de uma mesa para se abrigar.

Uma hora depois, os 7 que ficaram sentados e aparentemente achando graça na cena desesperadora foram apresentados à imprensa. O oitavo, que se escondeu, desesperado, já havia sido dispensado. A granada era falsa e tudo não passava de um último teste surpresa...

A história acima aconteceu de verdade, em 1958, e é um ótimo exemplo de como astronautas devem ser corajosos. Mas não é sobre esses astronautas que essa postagem falará. Falaremos daqueles que tiveram que enfrentar algo muito mais assustador que uma granada numa sala fechada. Algo do qual não existia praticamente chance alguma de sobrevivência. Eles tiveram que manter a calma e, incrivelmente, sobreviveram à um desastre: Por causa de uma falha na nave que os levaria à Lua, eles acabaram literalmente sozinhos no espaço em um foguete quebrado. É claro que estou falando da lendária missão Apollo 13.

O programa espacial

Estamos no início dos anos 70. Uma época onde a corrida espacial já havia acabado: Os EUA triunfaram sobre a URSS. Tudo muito lindo, e as missões de ida a Lua se tornaram, de certa forma, corriqueiras.

Depois da famigerada primeira missão que realmente tinha a Lua como destino, aquela onde Neil Armstrong deixou a primeira pegada na Lua e tudo o mais (e não venha me dizer que isso é uma montagem nos moldes Holywood para enganar as pessoas, não acredite em qualquer conspiratório que aparece na internet. Se nem a URSS contestou que o Neil chegou na Lua, quem somos nós para contestar?), e da segunda missão (uma missão de resgate de peças na Lua, quase uma faxina), era a vez da terceira missão. Ela iria pousar em Fra Mauro, uma região onde o pouso seria mais difícil que nas missões anteriores, porém, de importância considerável para a continuidade dos estudos. Escalados para a missão da nave “Odisséia” estavam os astronautas James Lovell (comandante), Fred Haise e John Swigert

Além da própria dificuldade da missão, ainda havia um problema adicional: Os finais felizes das outras missões meio que maquiavam o fato de que muitos problemas estavam acontecendo antes do lançamento da nave Odisséia. A lei de murphy andava à solta pelos lados da NASA, e até um treinamento de rotina podia se transformar num incêndio de verdade (acredite, isso aconteceu mesmo). E na semana marcada para a partida da Apollo 13 teve de tudo: Desde um astronauta aparecer com rubéola, até uma das bases mais importantes do sistema ameaçar uma greve, passando por um motor movido a gás hélio que apresentou vazamentos em um teste... Apesar das dificuldades, tudo parecia sob controle (imagine se não estivesse...), e a NASA tinha total convicção (ou pelo menos fingia ter) de que a missão tinha tudo para ser tão bem sucedida quanto as anteriores. O fato é que os supersticiosos não compartilhavam desse opinião: O número 13, certamente, traria azar. Lógico que para a NASA isso não passava de uma bobagem, e a Apollo 13 decolou. Deveriam ter dado mais ouvidos ao povo, que como dizem, trás, consigo, a voz de Deus...

Houston, we have a problem

Tudo andava muito bem nos primeiros dois dias. Super bem, aliás, com direito até a uma transmissão para a TV e tudo mais. Era tudo alegria, até que paz foi interrompida por um forte barulho. Se você já pegou um avião, ou pelo menos dirigiu um carro sozinho por uma estrada deserta à noite, deve ser capaz de entender facilmente que barulhos repentinos nessas horas tendem a não significar coisas muito boas. Não era. Foi quando a famosa frase, que alertava a base, em Houston, de que o pessoal da espaçonave tinha um problema sério, foi proferida.

Levaram alguns minutos para que os astronautas e o pessoal aqui da Terra encontrassem a possível causa do barulho, que certamente não devia ser boa. Foi constatado que se tratava de um problema no Módulo de Serviço da espaçonave, fazendo com que tudo o que estivesse diretamente ligado à ele fosse perdido. Entre os problemas: Uma unidade de combustível parou de funcionar, havia oxigênio escapando, a linha elétrica principal estava pifada, e muito mais... Em outras palavras: A casa tinha caído. O dano era considerável e não havia a menor condição de continuar a missão, pelo fato simples de que a nave não aguentaria. Eles foram forçados a evacuar o módulo de comando e entrar no módulo lunar (chamado “Aquário”), um negócinho apertado que definitivamente não estava pronto para fazer a viagem inteira, sem o módulo de comando e, principalmente, sem o módulo de serviço ("a casa das máquinas" da espaçonave, por assim dizer), mas que agora, era uma espécie de bote salva vidas...

  Mas não terminava ali o dia de cão dos tripulantes: O jeito mais rápido de voltar para a Terra, naquelas condições, levaria 4 dias, e envolvia uma manobra complicada, uma vez que eles já estavam mais perto da Lua do que da Terra. A idéia era continuar até a Lua e contorná-la, para manter o impulso, em direção a Terra, mais ou menos como se o satélite fosse um loop de uma montanha russa, e o módulo lunar o carrinho: Era mais prático e rápido apenas passar pelo loop do que parar o carrinho e voltar na direção contrária.

O motor só seria ligado para impulsionar o 'Aquário' nos momentos certos,  evitando que eles ficassem presos na órbita da Lua. Não que esse motor fosse lá de grande ajuda: A impressão que ficava é que sem o módulo de serviço, o motor do módulo lunar era tão útil quanto seriam os pedais de uma bicicleta.

Mas por hora, economizar energia era a regra. Aliás, não só energia, ou você acha que o módulo lunar era um oásis de energia, água e oxigênio? O que eles tinham dificilmente daria para 4 dias. O próprio gás carbônico liberado por eles poderia acabar sufocando-os. O fato é que até haviam algumas reservas no módulo lunar, só que elas ficavam do lado de fora, longe do alcance dos astronautas. A situação era desesperadora. Mas os astronautas estavam muito mais tranquilos do que eu quando meu time toma um gol...

Medo é para os fracos

A verdade é que, como foi mostrado no começo da postagem, ser astronauta é uma das profissões mais “cabra macho” da humanidade, no mínimo. Os treinamentos, que podem ser confundidos facilmente com torturas, colocam os aspirantes à astronauta em provações físicas e psicológicas simplesmente absurdas, muitas vezes em lugares onde mesmo os aventureiros mais malucos não se atreveriam a ir...  De fato, os astronautas treinavam até aprender a rir da cara do perigo. E era o que acontecia: No rádio, durante todo o tempo que durou a missão, por mais trágica que a situação se configurasse, ainda era possível identificar uma ou outra piadinha dos astronautas com relação à sua morte iminente...

Mesmo assim, essa frieza toda tinha que ter uma lógica, e a lógica era justamente que todo aquele treinamento deveras cruel permitisse que eles fossem capazes de reagir apropriadamente nessas horas, caso fosse preciso. E assim seria. Deveria haver um jeito de salvá-los, e a equipe aqui na Terra sabia que eles poderiam encontrá-lo. E que os astronautas poderiam executá-lo.
Surpreendentemente o módulo lunar se revelou bastante eficaz, e, refeitos alguns cálculos, ficou claro que seu motor poderia sim trazê-los de volta, desde que alguns detalhes fossem ajustados, os recursos (água, energia, etc) fossem economizados e eles pudessem contar com um pouco de sorte, o que, considerando o histórico da missão, parecia ser o mais difícil.

Entretanto, a palavra "economizar" teria que ser levada muito a sério pelos Astronautas, já que os recursos disponíveis eram ridiculamente escassos. Bem, pelo menos, logo ficou claro que o oxigênio seria o bastante para a viagem. Eles só não podiam abusar do esforço, para não morrerem sufocados com seu próprio dióxido de carbono. O grande problema mesmo seriam os estoques de energia elétrica e água, que  geravam  uma espécie de paradoxo: Se permanecesse ligada o tempo todo, a energia elétrica logo acabaria. Desligada, gastariam mais água para manter o equipamento vital funcionando... Eles optaram pela segunda opção e cada astronauta agora tinha direito à meio copo d'água por dia, numa nave já muito fria por natureza (por não ter sido projetada pra esse tipo de situações) e, agora, úmida... Na Terra, o lance era ver e rever rotas, e tudo o mais que fosse preciso para trazê-los de volta com segurança. Tudo feito com a maior calma do mundo em parceria com astronautas ainda mais calmos, em meio a piadas sem graça, como se tudo não passasse de uma situação super rotineira...

Jeitinho brasileiro.

Havia ainda outro probleminha: Por mais que evitassem esforço física, eles não podiam parar de respirar, e portanto, precisavam filtrar o gás carbônico do Módulo Lunar. O problema consistia no fato do único encaixe disponível no módulo ser quadrado, enquanto o dos filtros que eles tinham que instalar, redondos (pois o encaixe do módulo de comando, onde eles deveriam estar na viagem, era assim). Nada que, acredite, um pouco de papelão, fita isolante, uns metais remanescentes do módulo de comando, uns sacos plásticos e uns tubos não pudessem resolver. Sim, com esses materiais eles improvisaram um filtro e a coisa funcionou...

Com o problema da sobrevivência resolvido por hora, agora era se concentrar no caminho de volta em si. A primeira lei de Newton  ("um corpo em movimento ou em repouso tende a manter seu estado inicial") garantia que a nave permacesse em movimento,mesmo sem energia (uma vez que no espaço, sem atmosfera, não há resistência para fazer a nave parar) sendo preciso apenas intervir nos momentos chave para fazê-la tomar o rumo certo.

Foi preciso ligar o motor duas vezes para trazê-los de volta. A primeira os colocou na rota certa para contornarem a Lua, e essa tentativa, como previsto, não apresentou nenhum problema. A segunda era o grande climax de toda a situação: Será que o motor voltaria a funcionar? Teria sobrado energia para isso? Seria esse motor potente o suficiente para tirar o módulo lunar da órbita da lua? Não havia como saber. Eles precisavam tentar sair da órbita da Lua no momento exato, e se tudo desse certo, estariam apontados de novo para a Terra, à caminho de casa. Senão, poderiam estar lá, girando em torno da Lua, até hoje... Chegado o momento. Foram longos 23 segundos. Muito longos. O mundo inteiro prendeu a respiração junto com eles... Uma tensão que só foi interrompida quando a mensagem, sucinta mas aliviadora, dizendo “bom trabalho”, foi dita aos astronautas pelo pessoal que coordenava tudo em Houston.

De volta à rota de casa, eles ainda precisavam se livrar de outro problema: O módulo de comando, quebrado, inutilizável, mas ainda preso neles. Felizmente, diferente de quase tudo o que aconteceu na missão, esse ultimo contratempo foi resolvido sem fortes emoções, e o módulo de comando foi ejetado sem maiores problemas, permitindo aos astronautas finalmente terem uma idéia do tamanho do problema que havia acontecido com ele: O negócio parecia estar totalmente destruído, quase irreconhecível.

Com tudo resolvido, bastou desligar o módulo lunar Aquário e esperar que a gravidade os trouxesse de volta. Eles entraram na Terra a mais de 20 mil km/h e, totalmente exaustos, desidratados, quase congelados, famintos e carregados de doenças que desenvolveram por se encontrarem nessas condições, aterrissaram no Oceano Pacífico. Vivos. Chegava ao fim aquela que pode ser considerada a mais heróica das missões do Projeto Apollo, pelo menos considerando apenas as que tiveram final feliz. O mundo inteiro vibrou unido como poucas vezes se viu na história, ao receberem a confirmação de que os astronautas conseguiram regressar da sua “Odisséia”. Os responsáveis por essa missão podem ter cometido erros, mas certamente, o nome da nave não poderia ser mais adequado...  

Um comentário:

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