sábado, 23 de julho de 2011

Hristo Stoichkov, o gênio Búlgaro


  Quantos palavrões em búlgaro você conhece?
Se ainda não conhece nenhum, uma boa maneira de expandir essa super relevante área do saber é perguntando a um tal de Hristo Stoichkov o que ele pensa sobre o árbitro da semi-final da Copa do Mundo de 1994, entre Bulgária e Itália.

A geração Cristiano Ronaldo e Messi, acostumada com transmissões quase diárias dos jogos do Velho Continente, e com o endeusamento dos jogadores de fora do país em detrimento dos que jogam aqui, pode não saber quem é esse tal Stoichkov de quem eu estou falando, e muito menos por que ele teria motivos para ser tão agressivo ao lembrar-se de uma partida. E a geração que pensa que Neymar é um jogador de “personalidade”, pra não dizer polêmico, então, poderia até achar que estou mentindo ao ler algumas histórias sobre esse ex-jogador.

Mas pode acreditar: Stoichkov não deixava nada a dever em comparação com nenhum dos craques da atualidade. Nenhum. Quantos jogadores hoje em dia conseguiriam levar a Bulgária até as semi-finais da Copa do Mundo e ainda dar um sufoco danado na Itália, de Baresi e Baggio, perdendo apenas por erros de arbitragem?

E, em tempos onde o futebol ainda não era o celeiro de garotos-modelo, que devem ter comportamento exemplar e discurso politicamente correto, que devem evitar a todo custo proferir qualquer frase minimamente contrária ao bom senso ditado pelos gentleman” que comentam o assunto nas redes de TV, rádio e internet ao redor do globo, certamente era mais explosivo que todos eles, juntos.


Começou. Acabou.

Stoichkov começou a carreira no Hebros Harmanli da Bulgária, passagem na qual não temos nada para contar. Isso porque a primeira coisa relevante que esse búlgaro fez em sua carreira de jogador foi... Ser banido do esporte. Para sempre.
Hein? Pois é... Filho de um militar, Stoichkov foi apresentado ao futebol justamente para que esse lhe ensinasse a controlar seu temperamento agressivo. Não deu muito certo. Aos 19 anos, quando já fazia chover no CSKA Sofia (o time do exército e um dos principais times da Bulgária), foi banido permanentemente do futebol após uma briga generalizada na final da Copa da Bulgária contra o arqui-rival Levski Sofia. Stoichkov fez o gol da vitória, e também foi o pivô da briga, ao sair na porrada com o goleiro do time adversário.

A briga foi de tamanha escala que as imagens rodaram o mundo. Vários jogadores foram banidos, entre eles, Stoichkov. Os times tiveram até que mudar de nome, porque eles próprios foram banidos!

Um ano depois, no entanto, como quase tudo no futebol, a história acabou em pizza, e todas as penas foram revertidas. Stoichkov podia voltar a jogar. Dono de uma perna esquerda fantástica, com uma precisão raríssima, tanto para chutes quanto para lançamentos (muito longos, por vezes, no melhor estilo Gerson) e passes, além de uma visão de jogo diferenciada, uma velocidade anormal e um posicionamento invejável, Stoichkov fez do CSKA um time sem rivais na Bulgária, e foi eleito o melhor jogador do país nos três anos seguintes, a saber, 1987, 1988 e 1989. Tanta habilidade começou a chamar a atenção da Europa inteira: Haveria um gênio no futebol búlgaro? Em tempos de Maradona, Roberto Baggio, Toninho Cerezo, Careca e outros craques, haveria outro monstro do futebol despontando longe dos grandes centros?

Em 1990, Stoichkov ganhou a chuteira de ouro Européia, ao fazer mais gols que qualquer outro jogador no continente. Chegava a hora de alçar voos mais altos: Stoichkov precisava jogar em um time equiparável ao seu talento. Mas, qual?

Dream Team

Stoichkov foi então para o Barcelona, apesar de que as coisas não iam bem pelos lados da Catalunha: O rival Real Madrid havia vencido os últimos 5 campeonatos espanhóis.

A esperança para acabar com esse hegemônia caía sobre os dribles em velocidade do atacante. Aliás, sobre os dribles, os passes, os lançamentos, cobranças de falta, os chutes a gol... Stoichkov era um atacante completo como poucos na história do futebol, e era disso que o Barcelona precisava desesperadamente naquela época.

Mas, antes mesmo que a torcida pudesse começar a se animar, o que aconteceu? Se você chutou algo semelhante a “ele se envolveu em uma encrenca”, acertou. Logo em seu primeiro jogo contra o Real Madrid, Stoichkov pisou no juiz e foi suspenso por seis meses. A pena acabou revertida e ele pôde jogar depois de dois meses afastado.

Zubizarreta, Guardiola, Nadal, Koeman, Stoichkov, Begiristain;
 Bakero, Amor, Sergi, Ferrer, Romário: Time de 1993
Bastou. Stoichkov podia aprontar das suas (como tomar dois cartões em 5 minutos e ser expulso), mas pelo menos enquanto permanecesse no campo, resolvia. Sob seu comando, não deu outra: Barcelona campeão espanhol. Começava ali a saga do Dream Team.

O Barcelona daquela época (começo dos anos 90) é considerado por sua própria torcida o melhor time da história do clube. Sim, melhor do que esse atual, de Messi, Xavi e Iniesta, cujo a mídia brasileira fala como se fosse o maior time europeu de todos os tempos. Na Catalunha, pelo menos entre os torcedores mais velhos, o sentimento é outro: Esse time é espetacular. Mas ainda não é como o Dream Team.

Aquele Barcelona, treinado por ninguém menos que Johan Cruijff, tinha, além de Stoichkov, jogadores do calibre de Michael Landrup, Ronald Koeman, Pepe Guardiola, Sergi Barjuan, o goleirão Zubizarreta... É mole ser a estrela desse time? Pois é.

E esse time fantástico do Barcelona venceria novamente o Campeonato Espanhol, e desse vez iria até onde o time catalão jamais fora até então: Campeão da Copa dos Campeões da UEFA (atual UEFA Champions League) em 1992. Advinha quem foi o destaque da competição naquela temporada? Pois é.

No final do ano, no Japão, o Barcelona perderia a Copa Intercontinental (na época mais conhecido como Mundial de Clubes) para o São Paulo FC de Rai, Zetti Muller e outros, de virada, por 2 x 1. O gol do Barcelona foi marcado por Stoichkov, um golaço, aliás. Vale ressaltar que o Barcelona chegara ao Japão apenas 24 horas antes o jogo. Vale ainda lembrar que logo após o gol do Barcelona, Ronaldão, zagueiro do SPFC, a pedido de Muller, deu uma entrada violentíssima no búlgaro que o comprometeu pelo resto do jogo, vendo nessa a única estratégia para para-lo...

"O melhor jogador brasileiro de todos os tempos"

Não me crucifiquem: Quem faz a afirmação é o próprio Stoichkov. Segue:

“O Brasil teve vários jogadores incríveis. Pelé, Zico, Sócrates, Rai... Mas o melhor de todos os tempos é o Romário. Ele é o número 1”.
E o Ronaldo, Stoichkov? “Bom jogador, nada demais”. Tá bom, já que você diz né...

O fato é que a partir de 1993, ele e o baixinho fizeram uma das maiores duplas da história do futebol mundial, que, sem nenhum tipo de exagero, é comparável apenas com outras do calibre de Pelé e Coutinho ou Maradona e Careca.

Grandes amigos

Não que tenha sido uma parceria amistosa desde o começo. Conta-se, inclusive, que Stoichkov não queria o brasileiro pelos lados do Camp Nou: Na época, apenas 3 estrangeiros eram permitidos por time. Landrup (Dinamarca) + Koeman (Holanda) + Stoichkov (Bulgária) + Barcelona (Espanha) = 3 estrangeiros. Um quarto, com a qualidade do Romário, obrigaria o técnico Cruijff a promover uma espécie de rodízio. Não parecia legal.

Logo, no entanto, o problema foi superado: Stoichkov e Romário se entenderam perfeitamente bem, dentro e fora de campo (até hoje são grandes amigos, sendo que quando o Romário vai a Espanha, fica na casa de Stoichkov, e quando este vem ao Brasil, fica na casa de Romário...). O resultado não podia ser outro: Campeões Espanhóis novamente. Destaques? Romário e Stoichkov.

A Copa do Mundo

Stoichkov agora era uma estrela internacional. Chegou aos EUA para disputar a Copa do Mundo de 1994, e esse seria seu grande teste. Afinal, jogar no campeonato Búlgaro não é parâmetro. E havia quem falasse que ser artilheiro naquele time fantástico do Barcelona também não era coisa de outro mundo, afinal, o time inteiro ajudava, e muito... Com a seleção da Bulgária a situação era outra: O time não era tecnicamente bom, e os adversários, pelo menos em tese, eram bem melhores.

Stoichkov, como sempre, não decepcionou. Foram nada menos que 6 gols e a artilharia da Copa, que levaram a totalmente desacreditada Bulgária à semifinal da competição. Lá, perderam para a Itália em um jogo polêmico. Stoichkov acusa, até hoje, o árbitro da partida de não ter expulsado o zagueiro italiano Costacurta e deixado de marcar dois penaltis pró Bulgária, tudo, claro, propositalmente. Segundo ele: “Aquela altura, Itália e Brasil tinham que fazer a final da Copa. Não havia interesse nenhum em que a Bulgária viesse a estragar a festa”. Os dois gols de Roberto Baggio tiraram a Bulgária da Copa, frente ao único gol que Stoichkov conseguiu marcar na partida.

Na disputa do terceiro lugar, a Bulgária, desmotivada, ainda perderia por 4 x 0 para a Suécia. Nada que apagasse, no entanto, a brilhante e surpreendente campanha búlgara naquela Copa, que eliminou pelo caminho ninguém menos que a Alemanha (que defendia o título), o México e ainda vencera a Argentina na primeira fase, além da França, ainda nas eliminatórias. Naquele ano, Romário foi eleito o melhor jogador do mundo, e Stoichkov, o melhor da Europa.

As coisas, que até então iam muito bem, começariam a desandar a partir daí...

O fim do Dream Team e os novos ares

Na temporada 1994 -1995, o Dream Team do Barcelona não encantou mais: Embora ainda jogasse muito bem como de praxe, os títulos não vieram, e Romário, se foi (voltou ao Brasil, ainda no auge, para jogar no Flamengo).

Só uma coisa não mudou: Stoichkov. Ainda decidia em campo. Ainda comprometia sempre que podia, com seu temperamento complicado, brigando com Deus e o mundo a cada jogo e a cada treino. O Barcelona já praticamente contava com suas suspensões, já que não era raro que o mesmo fosse punido com pelo menos um mês fora dos campos, ou porque xingou alguém, ou porque bateu em alguém, ou por quaisquer outra coisa que ele não deveria fazer (pelo menos não com tanta frequência). Era uma solução e, ao mesmo tempo, um problema.

Para piorar, o Barcelona tinha no comando ninguém menos que ídolo Cruijff, outro que não era flor que se cheire. As brigas entre os dois nunca foram exatamente uma raridade. Mas a união dava resultado. Quando o resultado parou de vir, a coisa desandou.

Stoichkov então botou encima da mesa o que pensava e deu um ultimato aos diretores do Barcelona: “Ou ele, ou eu!”
O Barcelona disse “Ele”. Stoichkov estava fora.

Depois de uma temporada no Parma, Stoichkov voltou ao Barcelona tão logo Cruijff saiu. Mas as coisas já haviam mudado muito na Catalunha: Ronaldo era a nova estrela do lugar. Logo mais, ainda chegaria Rivaldo. Stoichkov, que já não era nenhum menino, não tinha mais o mesmo espaço de antes, sendo preterido pelo técnico e pela direção do clube.

Começaria então a sua volta ao mundo. Retornou ao CSKA Sofia, passou pelo mundo árabe ao defender o Al-Nassr, onde foi campeão da Super Copa da Ásia, e foi jogar no Japão, no Kashima Reysol.

Encerrou a carreira e desistiu, seduzido pela grana da emergente Major League Soccer, onde jogou pelo Chicago Fire e DC United.

Cristo?

Stoichkov hoje em dia é, quem diria, treinador. Treinou a seleção búlgara, o Celta de Vigo, até ir para onde está atualmente, no Mamelodi Sowndowns, da África do Sul.

E por falar em atualidade, sua carreira brilhante como jogador levaria a crer que Stoichkov é uma unanimidade a Bulgária, correto? Vai nessa... A imprensa local não é exatamente muito fã dele. E a recíproca é verdadeira.

Sobre os jornalistas de seu país, ele declarou recentemente: “Eu sou Hristo Stoichkov e eles...”. O complemento da frase não é apropriado para este que é um blog de família.

A verdade é que o comportamento não muito adequado de Stoichkov nunca foi nada em comparação com seu grande ego. E isso nunca agradou muito os jornalistas Búlgaros. A situação gerou uma bola de neve, onde eles não gostavam de entrevistá-lo, e ele não gostava de conceder entrevistas. A situação é parecida com a de Nelson Piquet e os jornalistas brasileiros, só que bem mais tensa.

Stoichkov os acusa de não lhe dar o devido reconhecimento. Pela torcida é bem recebido, no entanto. E fora da Bulgária, no continente Europeu, é uma unanimidade. Na Catalunha, ele é Deus. Aliás, não só na Catalunha, como também, no nome. E talvez, em sua imaginação...

“A humanidade conheceu apenas dois Cristos dignos de nota: Um está no céu. O outro joga no Barcelona”. Frase de Stoichkov, ainda no auge, fazendo referência ao seu primeiro nome, Hristo (cujo a pronúncia é “Cristo”). Esse é Stoichkov, sempre polêmico, nunca modesto. Não que ele tenha muitas razões para modéstia...

Um comentário:

  1. Muito boa matéria!
    Jogava muito o Stoichkov e também o Balakov e o eterno carequinha Letchkov

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