sábado, 9 de julho de 2011

Jim Clark: O Escocês Voador

Ele foi o piloto mais rápido de sua geração. Aliás, quem o viu correndo, jura que ele foi o mais habilidoso de todos os tempos, não apenas na Fórmula 1, como em todo o automobilismo.

Ele correu em um tempo onde a Fórmula 1 era muito mais difícil e muito mais perigosa do que hoje. Um tempo onde o piloto era muito mais importante do que o carro.

Quando seus principais adversários começaram a se aposentar, ele ainda era jovem, e tudo indicava que nada o impediria de superar os números do então recordista Fangio.

No entanto a carreira desse piloto genial foi interrompida abrupta e tragicamente em um acidente que foi um primeiro pass para que todos repensassem todo o conceito de segurança no esporte a motor. Dizem que o automobilismo jamais viu alguém com tamanha habilidade.

De quem estou falando? Bem, se você for brasileiro, é bem provável que tenha chutado “Senna”, afinal, a descrição acima também bate com o genial tri-campeão. Mas não é dele que falaremos n essa postagem, e sim, de outro gênio, chamado Jim Clark (mas pode chamar de “Escocês Voador”).


O carro que andava sozinho.

O que você pensaria se, andando pela rua, visse um carro passeando assim, sozinho, sem motorista, como se tivesse vontade própria? Bem, os vizinhos de Jim sabiam bem do que se tratava: Apenas o menino andando com o carro do pai. Ainda aos 8 anos, ele era tão pequeno que muitas vezes, dependendo do ângulo que se olhasse, não dava para vê-lo atrás do volante.

Jim Clark aprendeu a dirigir sozinho, apenas observando seu pai, quando ainda era uma criança. Seu talento já podia ser visto ali: Mal conseguia ver a rua, mas já dirigia melhor do que a maioria dos adultos da vizinhança. Não que isso fosse algo do qual os vizinhos ou mesmo a sua família se orgulhasse muito...

Seu interesse por corridas, no entanto, demorou um pouco mais a vir, e começou a despontar na adolescência. Foi então que um adolescente tímido e obediente assumiu a ousada postura de contrariar seus pais, que reprovavam as corridas, e decidiu que seria piloto. Foi reprovado por toda a sua família, vizinhos e amigos. Não ligou e foi em frente. Alguns jamais se convenceram de que ele tenha feito a escolha certa (!). Segundo o próprio, sua “rebeldia” lhe rendeu o estigma de idiota do bairro durante toda a vida.

Mas o amor pelo automobilismo falava mais alto do que qualquer pessoa, e Jim seguiu disputando campeonatos clandestinos de várias categorias, especialmente rali, até completar 20 anos, a idade mínima para disputar corridas oficiais na época.

Suas primeiras corridas já trouxeram resultados expressivos, incluindo uma vitória logo na estréia. Alternando entre os trabalhos na fazenda do pai (do qual ainda era obrigado a tomar parte) e as corridas, foi participando de diferentes categorias, vencendo aqui e acolá. No início, corria por uma equipe pequena, chamada Scott Walson. Recebeu um convite para correr na maior e mais competitiva Bouder Rivers. Passou a correr em ambas, chegando inclusive a correr no mesmo dia em dois eventos diferentes, um por cada equipe, na legendária pista de Spa-Francorchamps

Correria as 24 horas de Le Mans pela primeira vez em 1959, junto com o então veterano John Whitmore, que ao término da corrida, declarou: “Pensei que estava aqui para ensiná-lo, e acabei aprendendo...”

Foram 50 vitórias em corridas de rali, speed trials, carros de turismo e outras categorias até que Jim Clark recebesse seu primeiro convite para pilotar um carro de fórmula (ou monoposto). Começava ali a confirmação de uma lenda.

O gênio da Fórmula 1

Clark jamais tinha pilotado sequer um carro parecido com um carro de fórmula. Ele, inclusive, jamais pilotou um kart, famosa e quase obrigatória escola para pilotos que almejam um lugar ao sol nesse tipo de competição. No entanto, bastaram 6 meses na Fórmula Junior inglesa (equivalente da época a F-3) para que convencesse a todos que seu lugar era entre os melhores, era na Fórmula 1.

Clark no entanto não deixou de correr na F-Junior, assim como também não deixou de correr (e vencer) em ralis, carros de turismo ou outras categorias, incluindo também a Fórmula-2. Era um piloto completo.

Que não encantou em sua estréia na Fórmula 1. Embora tenha apresentado um ótimo desempenho para um estreante, tanto ele quanto seus companheiros da Lotus, equipe que lhe abriu as portas da categoria e onde ele correria toda a sua carreira na categoria, sabiam que ele ainda estava andando abaixo do que poderia. Ainda estava tímido. Ainda não era o gênio que tinha potencial para ser... Mesmo assim, era evidente aos olhos de todos que era um piloto diferenciado, com uma habilidade incrível e uma capacidade de poupar o carro fora do comum (uma marca de toda a carreira de Clark, que sempre conseguia andar muito mais rápido, exigindo muito menos do carro, se comparado com todos os competidores, incluindo companheiros de equipe)

Foi em seu ano de estréia, na Fórmula 1, que Jim Clark, aliás, esteve envolvido em uma das maiores tragédias da história do automobilismo. Em uma disputa pela primeira colocação entre Jim e Wolfgang Von Trips no GP de Monza, eles se tocaram, Von Trips voou para as arquibancadas e o impacto matou o piloto e outros 13 espectadores, deixando muito mais gente ferida.

Clark no entanto recusou-se a depor no inquérito policial e saiu rapidamente do país. Assim que voltou para a Itália , acabou ficando preso por algumas horas por conta disso.

As vitórias

Clark venceria pela primeira vez em Spa-Francorchamps, pista pela qual, curiosamente, ele nutria um forte sentimento de rejeição, por ter presenciado por lá a morte de um dos pilotos o qual mais admirava, Archie Scott Brown.

O carro da temporada de 1962 era competitivo, e o principal: Clark já havia superado a “síndrome do novato”. Já estava pronto para fazer história.

Naquele ano, disputou até a última corrida o título com Graham Hill, que era um piloto bem mais experiente que Clark e de quebra tinha um carro bem superior. Ainda assim. Bastava uma vitória no GP da África do Sul para que o título ficasse com Jim, e este disparou em primeiro lugar, seguido por Graham Hill. “Seguido”, já que Hill não conseguia de forma alguma acompanhar Clark, que fazia uma corrida perfeita. Vocês verão a partir de agora que Clark, no entanto, nunca foi exatamente um cara sortudo.

Faltando 20 voltas para o final, o carro de Clark começou a soltar uma estranha fumaça. Ele praticamente se arrastou até os boxes e recebeu a notícia: Um parafuso havia sido mal apertado e se soltara, enchendo o motor de óleo. A corrida estava acabada, e o título jogado no colo de um competente e também merecedor Graham Hill.

Óleo ou água?

Em 1963 no entanto, com uma temporada arrasadora, nada pôde impedi-lo de colocar as mãos na taça. Para ter-se uma idéia do domínio de Clark naquele ano, sua pontuação total, de 73 pontos, só foi superada por Alain Prost em 1985 quando este fez 75 pontos. O detalhe é que o ano de 1963 teve apenas 10 corridas, e o de 1985, 16... Clark, aliás, venceu 7 das 10 corridas.

Foi em 1963 que Jim Clark decidiu participar pela primeira vez das 500 milhas de Indianápolis. O próprio piloto considerava a estrutura das competições americanas muito aquém das européias, no entanto, a premiação paga ao vencer da Indy500 era algo de encher os olhos já naquela época. A Lotus preparou um carro especialmente para que Clark pudesse correr. Um carro que, com motor traseiro (diferente do motor dianteiro, padrão dos carros da competição), pequeno e leve para os padrões americanos, gerou piadas dos competidores.

E deixou muitos queixos caídos, quando a corrida começou. Rápido, ágil e, principalmente, econômico (ele inclusive fez apenas duas paradas, contra três de todos os outros pilotos).

A poucas voltas do fim, Clark vinha em segundo, atrás do americano Parnelli Jones. O carro de Jones, no entanto, apresentou falhas e começou a jogar litros de óleo na pista, que se tornou um sabão e começou a causar diversas derrapadas.

A regra o obrigaria a parar, mas Jones continuou correndo, alheio ao caos que estava causando. O chefe de equipe e melhor amigo de Clark, Collin Chapman, foi reclamar, e viu o diretor da corrida pegar um binóculo, olhar e dizer, calmamente: “´É apenas água”. Todos podiam ver que aquilo não era água. No entanto, a idéia de deixar aquele europeu com aquele carro esquisito vencer assim na estréia parece ter pesado negativamente contra Clark, que acabou tendo que se contentar com o segundo lugar. O banho de óleo ainda causaria um acidente, e o piloto acidentado, ao reclamar, ainda tomaria um soco de Jones...

Mais e mais azar...

Em 1964, Clark e Hill novamente disputavam o título na última prova, desta vez com a companhia de John Surtees.

Hill foi tirado da corrida em um acidente (deveras suspeito) logo no início. Clark liderava a prova até faltarem 7 voltas para o fim. Notou uma trilha de óleo no chão e até desviou dela. Na volta seguinte, percebeu que a trilha de óleo se tratava do óleo do seu próprio carro. Não teve jeito: Seu motor não resistiu e ele perdeu a corrida.

O título ficou com Surtees, que terminou a corrida em segundo lugar. Vale registrar o desespero dos mecânicos da Ferrari para que o companheiro de Surtees, Lorenzo Bandini, lhe cedesse o segundo lugar para que Surtees garantisse o título. Eles tiveram que literalmente pular na pista!

Em Indianápolis a dama da sorte também não lhe sorriu aquele ano: Escapou de um acidente (que matou dois pilotos) no início da prova, mas não conseguiu completá-la, vítima de problemas mecânicos novamente.

No entanto, em 1965, Clark finalmente venceria na principal prova do automobilismo mundial. E que vitória! Liderou de ponta a ponta, e completou as 500 milhas duas voltas a frente do segundo colocado, para se tornar o primeiro europeu a vencer a prova desde 1916, e fazer do seu Lotus o primeiro com motor traseiro a vencer a prova.

Falando em Indianápolis, a “vitória” de 1966 é no mínimo curiosa: Clark e sua equipe pensaram ter vencido a prova, mas no entanto, Graham Hill foi quem recebeu a bandeirada. Tudo se deu por uma barbeiragem (quem diria) de Clark, uma das mais espetaculares da história das 500 milhas, onde o mesmo rodou por 3 vezes na pista e conseguiu recuperar o carro, sem bater em nada e nem sair da pista (pois é, até suas barbeiragens eram diferenciadas..)!

Provavelmente entusiasmados com o showzinho particular de Clark, seus cronometristas acabaram por se confundir e esqueceram-se de contar uma volta de Graham Hill! Correndo uma volta atrás sem saber, o resto é história...

Mônaco? Motor ligado? Nem quero...

Voltando para a Fórmula 1, em 1965, Clark novamente dava show: Nas 7 primeiras corridas da temporada, havia vencido 6. E a quem possa interessar, só não venceu as 7 por não ter participado do GP de Mônaco: Estava ocupado vencendo em Indianápolis naquele final de semana. Isso exemplifica algo que mudou muito daquele tempo para cá: Naquela época, os pilotos acabavam participando de mais de uma competição ao mesmo tempo, e muitas vezes tinham que escolher qual seria mais interessante correr.

Foi no desafiador GP da França, em 1965, que ele conseguiu uma de suas vitórias mais emblemáticas: Liderando a prova, percebeu que em apenas alguns trechos seu motor apresentava problemas (para variar, envolvendo o óleo). Clark resolveu então aliviar o pé naqueles trechos. Sem chance, não deu certo. Ele então partiu para um plano no mínimo extremista: Desligar o motor naqueles trechos! O mais incrível é que deu certo e ele saiu com a vitória... Suas 23 vitórias naquele ano de 1965 (obviamente, não todas pela F-1), sua vitória em Indianápolis e seu bicampeonato na principal categoria o levaram a aparecer na capa da revista Times, algo raríssimo para esportistas, especialmente os nascidos fora dos EUA...

A maior corrida

Para a maioria dos especialistas, a grande Mona Lisa de Clark no entanto foi a corrida Monza em 1967, onde, curiosamente, ele sequer saiu vencedor, terminando em terceiro lugar.

A temporada de 1967 não vinha muito boa: Ele até vencia, quando o carro deixava. Seguidas quebras o colocaram em uma condição difícil no campeonato.

E naquela corrida, a história parecia se repetir: Liderava a prova até que seu pneu furou. Parou nos boxes e voltou em penúltimo lugar. Tudo parecia perdido. E estaria, se ali, naquele penúltimo lugar, não estivesse o escocês voador.

Se nem mesmo os campeões lá na frente conseguiam dar conta de Clark quando este não quebrava, o que dirão aqueles que corriam lá atrás? Clark foi passando um a um, em uma das recuperações mais espetacular da história da Fórmula 1 e do automobilismo como um todo. Ele foi passando um a um, até que, faltando sete voltas para o final, já estava novamente em primeiro lugar.

Porém, dessa vez, o erro foi do chefão Chapman: Quando Clark parou para trocar os pneus, esse pediu que os mecânicos tirassem um pouco de combustível para deixar o carro mais rápido. A poucas voltas do final, Clark teve que reabastecer, perdendo a liderança. Diz a lenda que foi a única vez que Clark e Chapman realmente brigaram.

Mas se você perguntasse ao próprio Clark, no entanto, ele apontaria o GP de Nurburgring, no qual terminou em 4° lugar, em 1962, como sua grande obra prima. Largou em terceiro, mas com um problema na bomba de combustível (Clark esqueceu de ligá-la, o que fez desse problema muito mais conhecido como “burrice”, algo raro na carreira do piloto), acabou sendo passado por todos na largada.

Pois é, mas ao final da primeira volta, Clark já estava em terceiro. Sim, ele passou nada menos do que 16 carros em apenas uma volta. Clark continuava diminuindo a distância para os líderes até que rodou e perdeu uma posição. Consciente de que já havia feito algo incrível e com uma grande dose de prudência, reduziu o ritmo e apenas levou o carro até o final da corrida.

O fechar das cortinas

Clark conseguiu, na primeira corrida de 1968, na África do Sul, uma marca emblemática em sua carreira: Ao vencer sua 25° vitória em 70 corridas na Fórmula 1, superou os números do lendário Juan Manuel Fangio. Sua média de pontos, 3,81 por GP, aliás, é exatamente a mesma de outro piloto genial que morreu tragicamente, Ayrton Senna. Apenas Fangio, Schumacher, Ascari, Prost e Farina tem uma média superior a esses dois.

Mas o ano de 1968 marcaria a triste despedida de Clark. A corrida de Hockenheim de Fórmula 2, daquele ano, era disputada por diversas feras, entre eles, Clark, Hill, Chris Amon e outros, que corriam para um público de mais ou menos 25 mil espectadores, todos ávidos por ver mais um show de Clark, principalmente.

Famosa por ser construída no meio de uma floresta, não era apenas no fato de pilotos disputarem várias competições simultâneas que aquela época se diferenciava de hoje: Qualquer preocupação excessiva com segurança dos pilotos era vista meramente como covardia.

Resultado: Nenhum guard-rail ou qualquer outra coisa que ficasse entre os pilotos e... as árvores da floresta! Parece loucura correr assim, mas naquele tempo, esse cenário era bem comum.

O senso comum diz que juntar um piloto sem muita sorte com uma pista mortal, resultará, cedo ou tarde, em uma tragédia. Não deu outra: Clark passou direto em uma curva, e bateu em uma árvore. Sem cinto de segurança (não era usado na época!), a morte, por traumatismo craniano, foi instantânea. Dois pontos a serem citados aqui: Primeiro, por pouco Clark não correu, já que fora convidado a correr em uma outra corrida, nos EUA, naquele mesmo dia. Falhas de comunicação o fizeram desistir e correr na Alemanha mesmo. A outra, é que segundo seus amigos mais próximos, Clark, que tinha tudo para vencer o campeonato daquele ano, planejava abandonar as corridas no final da temporada e se casar. Planos frustrados por uma tragédia.

No total, foram 73 GP’s disputados na Fórmula 1, com 25 vitórias, 32 pódios e 33 pole-positions. Clark foi um piloto completo, que, diferente dos pilotos de Fórmula 1 atuais, era capaz de correr em qualquer tipo de carro: Fez historia em carros de fórmula, rali, stock cars (chegou a correr pela Nascar algumas temporadas) e turismo, todos muito diferentes entre si. Se destacou em todos os estilos. Foi um brilhante acertador de carros, e sabia poupá-los como poucos (mesmo contando com uma falta de azar inacreditável).

Jim Clark foi, muito provavelmente, o único piloto cujo a habilidade, em seu estado puro, livre de interesses comerciais, politicagens ou favorecimentos que se tornaram comuns com a evolução da categoria, pode ser comparado a Fangio. E ainda diziam que ele era o idiota do bairro... Vai entender esses escoceses...

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