terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A revolta dos samurais cristãos


  Esse suposto ser humano que vos escreve pode não entender muito de arte, mas uma coisa ele pode afirmar: A arte, meus amigos, é muito inteligente, e se ela imita a vida, é porque a vida está repleta de coisas que merecem imitações. Aliás, imitações não! A arte não imita, ela se inspira. E ponto final.

E quando a arte insiste em buscar sua inspiração, de novo e de novo, na mesma fonte, mesmo que seja para fins bastante distintos, é porque a fonte realmente é boa. Geralmente, são coisas que você esperaria ver na arte, e não na vida. Mas aconteceram primeiro na vida, para só então darem o ar da graça nas várias manifestações da arte.

E paralelo a isso, existem pessoas cujo a fé é tão grande que realmente são capazes de muita coisa que aos olhos das pessoas que se apegam unicamente na razão, pareceriam impossíveis. Pessoas que acreditam que a fé em Deus pode sim, por si só, operar milagres. Acreditam que nenhum exército é páreo para o amor e proteção divinos.

Bem, tanto na questão de ser inspiração das artes, quanto no fato de lutar até o fim movido pela fé, pode-se aplicar a vida de Amakusa Shirô. Quem foi esse? Um menino, literalmente um menino, que liderou 37 mil pessoas em uma revolta armada pelos direitos de exercer sua religião, ter um prato de comida e uma vida digna, em um país onde o Cristianismo estava proibido e algumas regiões estavam largadas à própria sorte. Ainda não sabe quem é? Vamos de novo: É o personagem que inspirou Amakusa Shogo, um vilão da versão em anime de Rurouni Kenshin (no ocidente chamado de Samurai X). E não, o nome não é uma coincidência, ele também inspirou Amakusa Tokisada Shirô, do game Samurai Shodown.

Ficarei só nesses dois exemplos e me perdoe se não citei seu personagem favorito, mas não vou ficar citando todos os (inúmeros) mangás, animes, filmes, livros e afins com algum personagem baseado em Shirô, até porque seriam tantos nomes e citações que duvido que alguém (incluindo o próprio Shirô, se pudesse) teria paciência de ler tudo. Eu quero que as pessoas gostem desse texto, que o leiam, e que fique claro que essa postagem não é sobre uma história ficticia, que ela não fala sobre um anime ou um game, e portanto, vou direto a ação, ao que importa: A história do Amakusa Shirô real, um menino que liderou um exército em busca da igualdade e do direito de acreditar em Deus, na revolta que muitos conhecem como “A Revolta dos Samurais Cristãos”.


O Filho de Deus (?)

Shirô nasceu em uma família católica relativamente influente em sua região e, embora não hajam muitas evidências disso, alguns registros dão conta de que talvez tenha sido o filho bastardo de Toyotomi Hideyori, esse por sua vez, filho de um dos generais que ajudaram a unificar o Japão, país que atravessava (à aquela altura, raros) tempos de paz.

Tempos de paz, exceto para pessoas nascidas em famílias católicas. Especialmente para aquelas que também seguissem a doutrina cristã. E mais especialmente ainda no caso das pessoas que fossem apontadas como uma espécie de profeta, mensageiro de Deus na Terra, capaz até mesmo de realizar milagres. E tudo isso se aplicava à Shirô.

O problema do cristianismo era bem simples: Suas idéias de igualdade batiam de frente com a filosofia imposta pelo Xogunato, o governo regente no Japão daqueles tempos. Então, para os governantes, o cristianismo uma ameaça em potencial. O governo logo proibiu a religião, e decretou pena de morte para quem a seguisse. E como quando os políticos tem interesse, a lei funciona, não demorou para que começasse uma série de verdadeiros massacres para fazer a tal lei ser cumprida.
Mas como nós sabemos, e talvez o Xogunato não soubesse, é que matar líderes religiosos e seus seguidores não diminuí a fé de ninguém. Pelo contrário: Cria mártires. E isso gerava um ciclo que não parecia ter hora para terminar.

Para piorar, a pequena cidade de Kami-Amukasa, onde ele nasceu, ficava localizada na península de Shimabara, uma região outrora governada por uma família cristã, com boa parte da população seguindo essa religião, mas que agora, com o Japão unificado, sofria com os efeitos da repressão ao cristianismo, além da cobrança de impostos abusivos (que financiavam a construção de um novo castelo, inútil por sinal, que seria erguido por pura politicagem, que como você pode ver, não é exclusividade nossa, nem dos nossos tempos), o que por consequência, gerava desemprego e finalmente, fome. Por lá, Ronins, que eram Samurais desempregados, sem um senhor para servir, eram cada vez mais frequentes. E tudo parecia só piorar, dia após dia...

Até que Shirô apareceu. Dono de um carisma incrível, e supostamente de “poderes” tão incríveis quanto (como curar os doentes ou andar sobre as águas. Soa familiar?), o Mensageiro dos Céus, como era descrito, juntou-se ao desespero, a revolta e a vontade de mudar essa realidade, e tornou-se a última coisa que a população de Shimabara precisava para tomar uma providência contra os abusos do novo governo: Um líder. E nesse caso, um líder de apenas 15 anos.

Os Castelos da Fé

Na verdade, a rebelião já estava sendo tramada antes de Shirô. Esse foi apenas nomeado como o líder da tal revolta, que começou tímida, com a morte de um dos fiscais do governo, e foi se espalhando até todas as ilhas na região de Shimabara aderirem. Diferente do que muitas vezes é mostrado (especialmente na ficção), não foi uma revolta 100% religiosa: Alguns lutavam contra a perseguição cristã, outros, contra os impostos abusivos, e outros, contra a negligência do governo. A bem da verdade, a maioria dos rebeldes não era cristão, embora quase que a totalidade deles lutava atraída pelas idéias de igualdade pregadas pelos líderes da revolta. A idéia de uma “revolta dos samurais cristãos”, como muitas vezes se referem à esse episódio (inclusive aqui, no título desse texto), não passa de um exagero, portanto.

Entretanto, eles contavam um número de ronins que embora fosse relativamente pequeno, era representativo, o que também inviabiliza a imagem de uma revolta feita totalmente por camponeses usando foices e picaretas como armas, uma vez que entre os rebeldes haviam também homens com boas noções referentes à arte da guerra. Aliás, o mais provável é que a idéia de uma revolta armada tenha partido justamente desses samurais sem mestre, e não dos camponeses.

Entretanto, não dá para dizer que eram uma força militar muito assustadora. Mais da metade dos rebeldes consistia em mulheres e crianças (que apenas em alguns momentos realmente pegaram suas armas e foram para a batalha, diga-se de passagem), e mesmo os ronins, como já foi dito, eram minoria em relação aos camponeses.

No final, estavam sob o comando de Shirô cerca de 37 mil rebeldes. E mesmo não sendo um grupo de especialistas e guerreiros experiêntes, era um bom número e certamente daria pra fazer um estrago... 

Quanto ao porque da escolha de um menino tão jovem e inexperiente com discurso que pregava apenas a paz e tudo o mais que você pode ouvir um padre falar em qualquer missa pela manhã, como líder da revolta, pouco se sabe. Aliás, tudo o que sabemos é que os cristãos acreditavam que Shirô era o filho de Deus, enviado para tirar o povo da miséria. Exatamente isso o que você leu: Segundo os registros, os cristãos da região de Shimabara acreditavam que Shirô era a presença de Deus entre eles. O mensageiro dos céus, Deus encarnado. E que ele era o único capaz de triunfar diante da opressão. Mesmo sem a menor experiência com relação às batalhas...

Reunidos, os rebeldes tentaram tomar 3 castelos diferentes, um por vez (Honda, Tomioka e o próprio castelo de Shimabara), e talvez pela inexperiência do seu líder, ou por outros fatores quaisquer, não tiveram sucesso. Na quarta tentativa, no entanto, conseguiram... Tomar um castelo abandonado! Mas não importava, em 5 de Dezembro de 1637 o castelo de Hara estava nas mãos dos rebeldes, e eles rapidamente aproveitaram a novidade de terem uma fortaleza, maximizando as defesas do castelo usando a madeira dos próprios barcos que usaram para chegar lá, e se prepararam para o combate, armados não apenas de suas armas originais, como também de outras armas e suprimentos que foram saqueando ao longo da campanha.

Certamente o Xogunato achou que seria mamão com açúcar expulsar aqueles malucos do castelo. Afinal de contas, eles tiveram que recuar nas 3 vezes que enfrentaram exércitos pra valer, e não seria agora que ganhariam super poderes. Bem, para desespero do Xogum, ao que tudo indica, eles ganharam sim os tais super poderes...

Num primeiro momento, o governo encarregado pela região mandou 3 mil guerreiros para tomar o castelo. Só 200 voltaram pra contar a história. Foi nesse ponto que a rebelião realmente começou a incomodar...

As notícias sobre a revolta chegaram ao Xogum, que deixou a cargo de alguns de seus homens de confiança a tarefa de por fim ao impasse. “Deixa com a gente”, provavelmente foi a resposta deles. Destacaram então uma tropa de 26 mil soldados, que ficaram sob o comando do general Shigemasa Itakura. Foram duas investidas pra começar, com um saldo de mais de 5 mil mortos do lado do Xogum e míseros 100 feridos na galera do Shirô. Resumindo, os pomposos soldados do governo foram simplesmente esmagados pelos camponeses. Na segunda tentativa, aliás, o próprio general Itakura morreu... Uma vergonha para o xogunato. Se não podiam dominar um bando de camponeses e ronins, quem eles dominariam? Aliás, como isso poderia estar acontecendo? Estariam realmente enfrentando um mensageiro de Deus encarnado?

A Lenda contra Deus

E foi com jeitão de “acabou a brincadeira” que o Xogunato mandou um exército com mais de 120 mil homens (algumas fontes dizem que o número passava de 150 mil), liderados pelo próprio conselheiro do Xogum, Matsudaira Nobutsuma.

E aqui uma curiosidade não muito citada: É bem provável que entre esses 120 mil estivesse ninguém mais, ninguém menos, do que o samurai mais famoso de toda a história: O legendário, e invicto por mais de 60 batalhas, Miyamoto Musashi.

Ainda é discutível, na verdade, se Musashi realmente participou dessa batalha. Mas existem algumas boas evidências. Sabe-se que o Xogunato realmente enviou-lhe um convite. E sabe-se que depois da batalha ele passou a morar em uma cidade bem próxima do castelo de Hara, o que indica que ele foi mesmo para aqueles lados naquela época. E em um de seus manuscritos / livros / cartas, Musashi em pessoa refere-se à um evento onde teria sido derrubado de seu cavalo por uma pedra atirada por um camponês durante uma batalha, o que para muitos, só pode ter acontecido durante essa batalha específica. Não é tão difícil, portanto, acreditar que Musashi, a lenda, e Shirô, o enviado de Deus, realmente estiveram em lados opostos dessa batalha.
Musashi à parte, Nobutsuma tinha um plano diferente para tomar de volta o castelo, mais sutil do que simplesmente atacar. Ele deu uma ordem simples aos seus comandantes: Cerquem o castelo. E não façam mais nada.

A idéia era bem simples, e Nobutsuma não foi o primeiro nem o último a utilizá-la: Vencer os inimigos pela fome. Cercados, dependeriam apenas do que tinham estocado. Cedo ou tarde não aguentariam mais e se renderiam. Mas novamente, a estratégia dos militares não parecia funcionar com Shirô.

Mesmo depois de vários dias e uma carta garantindo que nada lhes aconteceria caso houvesse uma rendição, os rebeldes continuavam dentro do castelo, por vezes cantando animadas músicas pedindo para que Deus os abençoasse nessa batalha. Para quem estava de fora, a impressão era que seus estoques de comida eram infinitos. Ou que eles simplesmente não sentiam fome. Músicas, gritos de guerra e exaltações a Jesus Cristo e a Virgem Maria, além de diversas outras demonstrações da fé cristã eram, aliás, as grandes marcas da resistência. Elas foram vistas em todos os momentos difíceis que os rebeldes passaram, e pareciam dar ainda mais força para continuarem. Era a força da fé...

Frustrado, o xogunato apelou até para ajuda de estrangeiros! Mais especificamente dos holandeses. Sob às ordens do comandante Nicolaes Couckebacker (que conseguiu também a façanha de ter o nome mais difícil dessa postagem repleta de nomes difíceis) as embarcações holandesas dispararam mais de 400 tiros de canhão contra o castelo. Foram 400 balas de canhão que, acredite, acabaram virando matéria prima para crucifixos e outros objetos de fé cristã... Bastou para conseguirem a rendição dos rebeldes? Nem pensar. Danos, só do lado holandês, que por incrível que pareça foram atingidos duas vezes pelo revide dos rebeldes, que embora não muito precisos nem habilidosos, utilizavam os canhões do próprio castelo para contra atacar, muitas vezes devolvendo as próprias balas holandesas...

Rebeldes marrentos

Como não tinham muito a ver com a história, os holandeses acharam que era bobagem gastarem sua munição e ainda correrem riscos por um castelinho inútil e abandonado de um país como o Japão, e deixaram o Xogunato a ver navios, literalmente.

Orgulhosos de sua vitória, os rebeldes chegaram a mandar uma carta bastante provocativa, perguntando se depois da humilhação de pedir ajuda para os estrangeiros, o Xogunato já teria esgotado totalmente seu estoque de tropas que seriam derrotadas...

E enquanto o tempo ia passando, mais e mais senhores feudais juntavam-se ao governo na tentativa de resolver o problema. Estima-se que no auge da batalha, mais de 200 mil soldados cercavam o castelo. E isso era um sintoma de que a vitória viria. Cedo ou tarde, mas viria.

No mês de Abril de 1638 (lembre-se que o castelo de Hara estava ocupado desde Dezembro de 1637...), já na base do desespero (apesar do discurso arrogante, é óbvio que todos aqueles que ainda estavam vivos dentro do castelo já estavam no limite), os rebeldes tentaram atacar de surpresa as tropas do governo enquanto estes dormiam. Não deu certo, e quem não foi morto, foi capturado. Entre os quais, Yamada Uemonsaku, o dedo-duro da vez, que depois de algumas torturas acabou soltando que dentro do castelo já não havia mais comida e muito menos pólvora. Tudo o que as tropas leais ao xogunato precisavam saber.
Alguns dias depois, o castelo foi invadido. De madrugada. Cerca de 5 mil rebeldes cometeram Sepukku, ou seja, suicidaram para não ter que se render ou serem mortos pelo inimigo. Seu destino não foi muito melhor que o dos demais, já que nenhum rebelde saiu daquele castelo com vida naquela noite. Amakusa Shirô foi decapitado e sua cabeça foi deixada em um lugar de destaque na província por um bom tempo, afim de servir como exemplo.

A revolta estava, depois de 5 meses, encerrada. Não sem deixar profundas marcas pra sociedade japonesa.

Hoje existe uma estátua de Shirô (foto) no local onde sua cabeça ficou exposta
Muitos dos senhores feudais (incluindo o da província de Shimabara) e soldados de alta patente envolvidos na batalha sentiram-se desonrados mesmo com a vitória, e cometeram também o Sepukku logo após o término do conflito. E o ato de “traição” holandesa, que virou às costas aos japoneses, não caiu bem: O Xogum fortaleceu um processo de fechamento das fronteiras que já engatinhava no Japão, primeiro, proibindo a presença de pessoas de quase todas as nacionalidades, exceto holandeses e chineses, desde que estes morassem na província de Nagasaki, e posteriormente fechando definitivamente as fronteiras do Japão para estrangeiros, o que iniciou um período de 200 anos de isolamento total das ilhas. Também foram completamente proibidos textos em português, uma vez que o cristianismo chegou ao Japão por intermédio de viajantes portugueses.

E a perseguição aos cristãos continuou por muito tempo. A partir daí, aliás, se intensificaram, sendo que em regiões onde a religião era bem aceita, eram comuns datas em que as autoridades obrigavam as pessoas a provarem que não eram cristãs, seja pisoteando imagens de Jesus e Maria ou outros objetos considerados sagrados, seja mostrando todos os seus bens. Essa última, aliás, é lembrada até hoje em dia na cidade de Nagasaki, durante um festival chamado Okunchi, onde as pessoas exibem seus pertences no jardim de casa, em homenagem aos seus antepassados que realmente tinham que fazer isso.

Assim como os feitos de Amakusa Shirô e a incrível resistência de seu povo jamais serão esquecidos. Shirô, aliás, chegou a ser citado como o quarto filho dos céus pela própria igreja católica. Se ele era ou não um santo, o mensageiro de deus ou algo do tipo, não cabe à esse blog julgar. Mas com uma história dessas pra contar, uma coisa é inegável: Ele é uma belíssima fonte de inspiração pra qualquer esfera das artes...  

Um comentário:

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