quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Bater ou correr?


  Em alguma savana da Africa, alguém vai se dar mal: Um guepardo está tentando devorar uma das gazelas, que estão pastando felizes e meio distraídas como de costume. Sem comer já a mais de uma semana, o guepardo aproxima-se sorrateiramente até que uma das gazelas percebe. Nesse momento, é dada a largada para uma das disputas mais incríveis da natureza: As gazelas disparam, fugindo para salvar suas vidas, e o guepardo as persegue, tentando tirar a barriga da miséria.

Na caçada é cada um por si: As gazelas partem a toda velocidade, e embora não tão rápidas quanto o guepardo, suas constantes trocas de direção e algumas outras estratégias tornam a caçada bastante difícil. No final, das duas uma: Ou o guepardo continua com fome, ou acaba sobrando pra gazela mais lenta, doente, ferida, ou simplesmente para aquela que por fatalidade estava na hora e lugar errados.

Tudo isso parece bem natural. Mas se pararmos pra analisar com um pouco mais de calma, algo pode parecer estranho: As gazelas são muitas e estão armadas com chifres grandes e pontudos. Já o guepardo é um só, e embora mais forte do que uma gazela sozinha, ele não parece tão grande e forte assim contra uma porção delas. Então, por que as gazelas correm, na base do salve-se quem puder, se elas poderiam simplesmente chifrar o guepardo até a morte e salvar o grupo inteiro?


Corra que o guepardo vem aí!

Antes de responder, vamos pensar num dos princípios básicos da seleção natural: Aqueles que forem mais adaptados ao ambiente sobrevivem e transmitem seus genes adiante. Muito bem.

Imagine que as gazelas realmente bancassem as rebeldes e enfrentassem o guepardo. As chances de conseguirem afastar o guepardo, se todas estivessem juntas na causa, é grande. Porém, o guepardo ainda teria a vantagem do ataque surpresa, e, talvez mais importante que isso, ainda é um predador e precisa comer, e quando a fome realmente batesse ele certamente estaria disposto a arriscar um pouco. E essas gazelas “cabra macho” teriam a tendencia a defender-se em grupo não apenas dos ataques do guepardo, como também das hienas, leões, e outros animais mais fortes e que atacam de maneira coordenada, em equipes. Esses são muito mais difíceis de repelir, e se uma das gazelas desse uma pequena brecha durante a defesa, essa coitada fatalmente seria ferida. Mesmo que por uma sorte não morresse, ficaria fraca, e em uma oportunidade futura, provavelmente acabaria sendo morta de verdade.

Imagine agora que nesse grupo de gazelas “guerreiras”, nascesse uma gazela com a tendencia a fugir para um lugar seguro, ao contrário das outras que preferem ficar e lutar. Esse alguém que adotou a estratégia de correr que nem uma marica vai se dar melhor do que os que ficam para lutar, pois ele (teoricamente) nunca será ferido por um predador, o que o permitirá viver mais e com mais saúde, e consequentemente deixar mais filhos. Esses filhos também teriam essa tendencia. E esses por sua vez, deixariam mais filhos. E assim por diante, até que a população de gazelas “fujonas” acabasse se tornando o padrão da espécie, e qualquer gazela “guerreira” que ficasse para encarar o perigo, não teria apoio do grupo e acabaria morrendo sozinha.

Outro detalhe desse caso específico: gazelas são animais muito rápidos. Só um animal no mundo é capaz de pegá-las depois que elas começam a correr: O guepardo. Mesmo assim, muitas vezes o guepardo acaba de barriga vazia. Para as gazelas, portanto, a estratégia de todos correrem por suas vidas na base do “cada um por si” é mais vantajosa pro indivíduo do que a estratégia de todos unirem-se para defender o grupo todo, uma vez que as chances de você ser morto quando o seu único predador é o guepardo são pequenas (lembre-se, ele vai pegar uma única gazela em meio a dezenas, que vai encher sua barriga por um bom tempo) comparadas com as chances de morrer quando tem que se preocupar com ataques de guepardos, leões, hienas, leopardos... Correr, portanto, também tem a vantagem de eliminar predadores em potencial. Correr é o que podemos chamar de Estratégia Evolutivamente Estável, ou simplesmente, EEE. Isso quer dizer que a estratégia, mesmo que não seja perfeita, é a melhor possível para os indivíduos da espécie e qualquer engraçadinho que se desviar dela, fatalmente morrerá.

Vou tentar deixar mais claro: Por mais que a estratégia de lutar possa funcionar bem, alguém que fizer diferente dela vai se dar melhor do que aqueles que fazem como manda o figurino. Agora, todos correm e só um valentão resolve fazer diferente e não corre, ele fatalmente morrerá. Como não há uma terceira opção (se o guepardo já te viu, você está num típico caso de “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”), no caso de todos correrem, essa será a única estratégia que funciona, e ir contra ela será suicídio. Então, correr é uma EEE.

Lógico, o indivíduo que é pego e percebe que os seus companheiros de grupo estão parados, observando de longe, fingindo que não tem aqueles chifres enormes no topo da cabeça, provavelmente deve achar que a vida (ou, nesse momento específico, a morte) é injusta e seus amigos são muito egoístas. E talvez ele esteja coberto de razão...

Preconceito racial?

Guepardos e gazelas são um caso interessante no reino animal: Um é especialista em vencer o outro. Gazelas são especialistas em fugir de guepardos. E guepardos por sua vez são especialistas em caçar gazelas. Não vou me alongar nesse caso (pois essas “corridas armamentistas” entre predador e presa merecem uma postagem a parte), mas peço licença para simplificar ao máximo e dizer que a EEE da gazela é ser muito rápida, e a EEE do guepardo é ser mais rápido ainda. Esses animais estão envolvidos em uma competição onde aqueles que não conseguem superar o seu “rival”, morrem.

Mas na hora do ataque, quem exatamente é o rival de quem? Olhando do ponto de vista do guepardo, seus rivais são óbvios: as gazelas. Se ele superar pelo menos uma delas, terá uma bela refeição. Já no caso das gazelas existem dois rivais: Naturalmente, um deles é aquele guepardo com garras e dentes afiados se aproximando a mais de 100 km/h. O outro? Todas as gazelas que estão no seu entorno, afinal, o guepardo, via de regra, pegará a mais lenta ou fraca delas.

Na verdade, do ponto de vista da gazela, a sua vizinha da mesma espécie consiste num problema potencialmente maior do que o guepardo: Ela disputa para não ser o jantar sempre que um guepardo aparece, mas também disputa por comida, parceiros sexuais, enfim, tudo o que uma gazela precisa, a gazela ao lado também precisa. Embora existam (muitas) vantagens em fazer parte de grupos numerosos, é preciso que o animal esteja pronto para lidar com a realidade de que todos no grupo estão concorrendo entre si pelos mesmos recursos, que não são ilimitados.

E isso explica algumas coisas, como o comportamento territorial de alguns animais. Vejamos, por exemplo, os pumas e lobos: Eles disputam o mesmo tipo de alimento e o mesmo espaço, mas, tirando o fato de que por vezes um acaba devorando o outro (se houver a necessidade e uma das partes vacilar), esses caras podem conviver por vários anos praticamente no mesmo espaço, disputando as mesmas presas, sem incomodarem-se mutuamente. Porém, alcateias estão sempre a postos para expulsar quaisquer lobo forasteiro. E pumas também não toleram pumas estranhos no seu pedaço...

Na selva, eles não podem se dar ao luxo de pensarem no “bem da espécie” e serem legais com todos os iguais que virem por aí... Para sobreviver, o individuo precisa pensar nele mesmo. Se isso quer dizer cooperar com alguns semelhantes (como os demais membros da alcateia) para todos se darem bem, ótimo. Mas novatos podem não ser bons para o indivíduo: O lobo invasor pode eventualmente derrubar o líder da alcateia, e o puma forasteiro pode acabar “tomando a namorada” do puma local...

Mas um puma nunca vai causar transtornos na alcateia, e um lobo jamais fará filhos numa puma (pelo menos esperamos que não). Sem contar a possibilidade do novato não ter nenhuma gratidão e simplesmente expulsar os locais de seu oásis repleto de comida, abrigo e relativa segurança, se tiver a chance. Podemos considerar que, tirando aqueles que vão efetivamente te ajudar de alguma forma, intolerância a indivíduos da mesma espécie parece mais vantajoso do que a tolerância. Temos novamente um exemplo de EEE.
E isso gera outra questão...

“E é por isso que eu prefiro as cabritas!”

Partindo desse princípio do individuo egoísta que não está nem aí pro bem da espécie e só quer saber do próprio bem estar, porque diabos então os animais não apresentam um comportamento canibal com mais frequência? Como já foi falado aqui no Blog, lobos chegam a travar verdadeiras guerras por territórios. Por que eles não usam estratégias similares para caçarem outros lobos mais fracos em tempos de escassez de alimentos? Pumas geralmente caçam baseando-se em emboscadas. Por que eles normalmente não matam outros pumas em emboscadas com a finalidade de encher a barriga? Do ponto de vista de quem está com fome e está acostumado a matar para sobreviver, carne é carne... Qual o problema, então?
Bem, primeiro temos que esclarecer uma coisa: Embora a frase acima, “carne é carne”, possa até parecer chocante a primeira vista, devo dizer que o canibalismo não chega a ser algo raro na natureza. Aliás, é muito mais comum do que as pessoas imaginam, principalmente entre adultos e filhotes (não são poucas as espécies em que os filhotes tem que se preocupar mais com os adultos da própria espécie do que com outros predadores – e em algumas até os próprios pais são um perigo em certo momento da vida), embora seja mais comum que os adultos matem os filhotes simplesmente para não terem concorrência (sim, no melhor estilo Scar, o tio do Simba).

Mas adultos caçando outros adultos da sua própria espécie não é algo comum. Se eles comem os filhotes sem pestanejar significa, teoricamente, que não teriam problemas em comer um adulto também. Mas eles não o fazem. Qual o motivo?

Vamos novamente usar o Scar como exemplo, pois foi alguém que aprendeu na marra o problema de lutar com adultos da mesma espécie: Eles geralmente tem as mesmas armas que você. Se ele for maior, mais jovem ou reunir outros fatores quaisquer que o façam mais forte, você vai virar o almoço (na verdade o Simba não devorou o Scar, mas se tivesse devorado a galera que curte acusar a Disney de pactos com o capeta iria adorar). E como o Simba deve ter percebido também, mesmo que ele esteja velho e acabado, a tendencia é que um adulto da mesma espécie tenha força o bastante pra te dar pelo menos uns tapas. Que machucam. E amanhã, é você quem vai ser o fracote machucado a ser devorado. Por isso não compensa nem pra quem ganha, muito menos pra quem perde...

O problema de ser um predador é que a sua comida não está disposta a encher sua barriga e via de regra você terá que come-la na marra mesmo, e não dá pra fazer isso se você estiver todo quebrado. Um predador não pode dar-se ao luxo de ficar se ferindo seriamente por qualquer motivo, por isso o melhor que ele faz é evitar lutas potencialmente perigosas.
Mesmo que você seja muito mais forte do que o invasor do seu território, não vale a pena arriscar sua sobrevivência numa luta se ele estiver disposto a fugir. E se você entrou no território alheio, é mais inteligente ir embora logo do que tentar ficar lá a força e arriscar tudo. E também é muito melhor caçar um animal que tem medo de você, do que um animal igual você, que pode reagir.

Lutas entre membros de um mesmo grupo, geralmente ocasionados por outras razões (como por exemplo, quando um lobo desafia o macho alpha e tenta assumir a liderança da alcateia) também não costumam ser até a morte. Para um observador, pode parecer que os lobos em questão são como boxeadores, lutando pela vitória, mas sempre respeitando um ao outro. Na verdade, o que acontece é que os lobos que tem a tendência a não se envolverem em lutas até a morte também tem a tendência a viver mais e deixarem mais descendentes. É uma EEE.

Não se aplica só aos carnívoros: Eu poderia passar horas citando também herbívoros e onívoros que resolvem suas diferenças em desafios quase que “formais”, onde o objetivo não é matar o oponente, mas apenas decidir quem é o mais forte. Uma vez decidido, o mais fraco coloca a viola no saco e desiste enquanto é tempo, e o mais forte deixa ele em paz. Porque pro mais fraco, insistir numa luta que ele claramente não pode vencer é suicídio. E pro mais forte, continuar o desafio é perder tempo, que pode ser usada pra fazer coisas melhores. Ambos ainda arriscam ferimentos desnecessários se continuam. O melhor pros dois terminar a luta o mais rápido possível. Não há opção melhor, é uma EEE. Ou quase. A EEE acima refere-se apenas aos casos em que os confrontos são inevitáveis (e as vezes eles são), já que existe, sim, uma opção melhor: Simplesmente não lutar, e na maioria dos casos é o que acontece. A EEE na verdade consiste em evitar ao máximo a luta, e se mesmo assim o pau quebrar, fazer o possível pra acabar o mais rápido e menos machucado possível.

E assim é a vida: Fazer o seu melhor hoje, sem jamais se esquecer de que amanhã a luta continua...

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