quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Otaku, o chato da turma


Todo fanático é um chato.
Torcedor de futebol fanático é chato. Religioso fanático é chato. Fã em geral, é chato – um fato da vida. Desde que inventaram a sociedade, sempre haverá um fanático por perto tentando ser o chato da turma.

Estou falando isso porque Otaku, o tema da nossa conversinha de hoje, por definição, é um fanático que monopoliza esse posto.

Eu não gostaria de ser reconhecido no Anime Friends depois de escrever  as linhas que se seguem. Mas existem algumas coisas que eu já estou querendo dizer faz tempo e você, otaku que está lendo isso, precisa ler. E lá vai:


O auto-flagelo

O que é um Otaku? Bom, pelo entendimento que eu tenho da definição (imprecisa) brasileira que se tem do termo, otakus são aqueles carinhas e menininhas que gostam de desenho japonês (D-E-S-E-N-H-O), musicas japonesas ou coreanas, cosplay e outras coisas relacionadas a cultura nerd / pop nipônica.
Ou isso é o que define um otaku por estas bandas. Por que a palavra Otaku, originalmente, é uma ofensa, e uma ofensa grave. Quem teve a brilhante ideia de se autodenominar com um palavrão estrangeiro eu não sei, mas pegou.
Em tempo: Assumir um rótulo para se dizer diferente é uma das coisas mais hipócritas que alguém pode fazer.

A da esquerda é homem, mulher ou otaku?
E esse é o momento pra eu deixar uma coisa clara: No frio da letra, eu posso ser considerado um otaku. E eu tenho muitos amigos otakus, aliás, alguns dos meus melhores e mais estimados amigos são otakus . Mas são otakus com cérebro. Esse texto não é sobre eles. É sobre outro tipo de otakus, que eu gosto de chamar de “otakistas” – e que infelizmente parecem ser a maioria.
Uma vez entendidos, vamos ao ponto: O que faz destas almas, criaturas tão indesejadas, afinal?

A moda de não seguir a moda.

Arrogância. Todo fanático tem em sua mente a crença de que aquilo que ele segue é a grande verdade na face da terra. Otakus não são diferentes.  
Quando estava pesquisando idéias pra esse texto, me deparei com alguém no Yahoo Respostas que dizia ser hostilizado por ser otaku. A “melhor resposta” começava assim: “Olha, ser otaku é uma dádiva, pois poucos conhecem dessa cultura!”

Traduzindo: São abençoados e tem mais cultura que os outros, afinal, assistem desenho japonês! Faz sentido. Ou não.

É o tipo de gente que faz piada do Big Brother Brasil e das pessoas que o assistem, um “programa não adiciona em nada em suas vidas”. Programa de quem não tem o que fazer. Coisa de quem não tem cultura. Ato contínuo, partem pros seus debates de filosofia em School Days.
Não, meus queridinhos, assistir anime não lhes torna mais cultos do que quem assiste a grade global. Você não aprendeu nada útil em Dragon Ball (no máximo, aprendeu sobre uma lenda chinesa de um macaco que voava numa nuvem... Pode pautar sua tese de mestrado nisso, olha só!).

Animes realmente podem ensinar alguma coisa sobre outras culturas? Sim, claro que podem. Assim como muitos programas da TV (aberta) também ensinam. É tudo uma questão de filtragem. Mas animes e as novelas que os otakus tanto criticam são exatamente a mesma coisa: Passatempos. Lazer. Não tem a obrigação de ensinar nada e quase nunca ensinam, exceto por coisas bastante superficiais (ou você realmente se considera um entendido na restauração Meiji porque assistiu Samurai X?).
"Por que o meu jutsu não funciona? No anime parece tão fácil..."

Aliás, otakus tem essa mania de se sentirem superiores aos outros por não “serem manipulados” e não seguirem a “massa”. Enchem a boca pra dizer isso enquanto seguem a massa estrangeira. Manipulação da Globo ou da NHK, só muda o idioma.
Putaria, violência gratuita, baixaria e besteirol, num anime típico e numa novela brasileira típica se equivalem. Bom, na verdade, a balança cai muito mais pro lado dos nipônicos...

Kawaii

Falando em agir igual e não perceber, vocês devem se lembrar de quando o povão saiu dizendo “Oshalá!” por aí, por causa da mulher da novela, certo? Ou quando a expressão “Stop, Salgadinho!” criou uma chata mania de inserir palavras em inglês no meio de frases em português? Agir dessa forma era uma coisa bastante brega, ridícula, não acham?

Pois é exatamente a mesma coisa que usar expressões como “Kawaii!” e “Yataaa!” no meio das suas conversas em português.

E vamos aceitar uma realidade: Você não sabe falar japonês. Não, você não sabe. Escrever seu próprio nome e saber umas 3 ou 4 frases prontas não é falar japonês. Assistir seus animes sem legenda (e entender tudo) e manter uma conversa tranquilamente em japonês por pelo menos 20 minutos é falar japonês. Se você não se encaixa no segundo perfil, você fala tanto japonês quanto eu falo italiano. Então,  pare de forçar – as pessoas não vão pensar que você é poliglota porque usa expressões japonesas. Só vão achar que você é bobo. Acredite em mim: Quando você chama seu amigo de “Baka”, o idiota da história é você.

Otakus tem outra mania relacionada com idiomas: A satanização das “versões brasileiras”. Ah se existisse internet no tempo da TV Manchete hein? Otakus (termo que não existia na época,) reclamariam que Cavaleiros do Zodíaco virou “modinha” (termo idiota) ou pior, criticariam até o nome que o programa recebeu por aqui. Cá entre nós, seria engraçado vê-los dizendo que Pokémon virou “modinha”, hehe...
Dublado? Nem pensar! Por mais que YuYu Hakusho dublado fosse muito melhor (“A rapadura é doce mas não é mole não!”).

Falando em coisas que eles não aceitam, uma das principais são os cortes que os desenhos recebem quando chegam por aqui (na verdade, geralmente eles são cortados já na edição dos EUA). Aliás, seria um progresso aceitar que animes nada mais são do que... Desenhos. Pra um japonês, Mickey Mouse é tão anime quanto One Piece. Se os caras que criam os animes definem assim, não são uns adolescentes que moram do outro lado do mundo que vão convencer alguém do contrário.
"Sou uma otaku gostosa to passando pra salvar a postagem"

Existem animes pra adultos? Sim, existem. Mas 99,9% dos animes que passam nas TV’s daqui são animes pra criança – e isso inclui Dragon Ball, Naruto, Samurai X, Bleach... A diferença é que a tolerância sobre o que as crianças podem ou não assistir no ocidente atual é diferente do oriente.

Ficar reclamando disso é agir como aquelas velhinhas que reclamam da proibição dos cassinos no Brasil. Não é porque funciona lá fora e um nicho específico quer, que a sociedade brasileira como um todo tem que acatar.

E o Japão não é o único lugar onde desenhos não são necessariamente feitos pra crianças. Enfim, anime é desenho e mangá é história em quadrinhos. E o choro, esse é livre.

Latino-Americano.

Aceitar realidades é preciso. E aqui vai mais uma, dura: Você não é japonês. Você é latino-americano, tanto quanto eu ou o Neymar ou o Che Guevara. A menos que efetivamente seja o seu nome, não adianta você adotar um nome japonês  (cá entre nós, um Silva Santos pedir pra ser chamado de Miyamoto é patético) e aliás, não adianta você se mudar para o Japão, pois você sempre será brasileiro.

Por mais que você odeie futebol. Por mais que você odeie samba. Por mais que você odeie o Brasil. Você nasceu aqui e nunca poderá mudar essa realidade – e se for morar no Japão, vão te lembrar disso com frequência.

E os japoneses também gostam de esporte, também ouvem musicas ruins, também assistem programas bobos na tv, também tem festas regadas a muita putaria, e a vida no Japão não é nada fácil. A vida no Japão é real, com pessoas de verdade. Tão real quanto a vida no Brasil.  

Aliás, estou falando agora com você, otaku fêmea, que acha que as meninas da sua vila não se valorizam, usam roupas indecentes e agem como umas cadelas no cio: Você já viu como as garotas japonesas se vestem e agem nas baladas de lá?  Dica: Qualquer uma delas entra e sai de um baile funk totalmente despercebida.

No demais, desculpa, mas não aceito moralismos nesse sentido vindos de uma classe que está acostumada com garotas vendendo beijos e apalpadas a partir de R$ 0,50...

Incoerência

Eu poderia ficar citando e citando e citando coisas irritantes que os Otakus fazem, mas posso resumir todo o resto usando uma expressão: Agir como crianças e querer que sejam vistos como adultos.
"Eu nem sou um anime, sou gostosa apenas."

Isso não vai acontecer. Ninguém tem preconceito com a cultura otaku. A maioria das pessoas nem sabe o que é isso. As pessoas tem preconceito com marmanjos de 23 anos que andam por aí imitando as atitudes de um personagem de um desenho animado e se achando a elite da sociedade.

Vocês podem não aceitar, mas quanto mais “povão” as animações japonesas ficarem no Brasil, melhor será pra vocês. Mais eventos, mais produtos, mais opções, mais qualidade, mais um monte de coisas legais.

Mas otakus, os otakus chatos, otakistas, eles não querem nada disso. Se as pessoas não assistem o seu anime favorito, não tem cultura. Se assistem, o anime virou modinha e não presta mais.

Isso não é, como disse a moça do Yahoo Respostas, uma “dádiva”. Não é ter cultura. Isso é ser otaku – no concepção pejorativa da palavra. Aquela que os otakus “do bem” se esforçam pra evitar, e vocês jogam por agua abaixo...  

6 comentários:

  1. Pooooxa, morri de rir e me senti pessoalmente ofendida com muitos parágrafos rs - no bom sentido, claro :P

    Curti muito, parabéns! ;)

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  2. Adorei seu texto cara. tudo que eu penso sobre isso esta escrito ai. Particularmente não me sinto nem um pouco ofendido pois não sou um Otaku idiota. também acho ridículo quando alguem fala "baka" ou "Kawaii" como você mesmo disse somos Brasileiros nada vai mudar isso. Pergunto para os "Otakistas" pra que falar "baka" sendo que praticamente ninguem vai te entender ? Ps: sim, sou uma pessoa que adoro animes,mas não me auto denomino Otaku,pois alem de fazer os outros achar que eu sou nojento eu não sou uma espécie diferente de ser humano, eu sou simplesmente uma pessoa normal que gosta de animes.Infelizmente ja fui um desses de falar "Ohayo" mas não frequentemente tipo com qualquer pessoa e sim com amigos que entendiam. ainda para "Otakistas" você não é superior a alguem só porque assiste DESENHO. e sim Animes são desenhos afinal foram desenhados. existe um nome diferente para cada idioma mas ainda é a mesma coisa. como para os EUA são Cartoons,aqui são Desenhos e para o japão são Animes. Bom acho que deu né kk. ainda poderia escrever mais sobre o assunto, acredite esse foi o resumo do resumo hehehe. Parabéns adorei o texto.

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  3. Sério, cara, você traduziu tudo o que eu sinto. Literalmente, tudo. Eu acho que posso ser considerada otaku por causa do gosto por animê e mangá, mas somente isso, ainda bem. Sinceramente me da uma raiva do fundo da alma quando a pessoa fica falando palavras aleatórias em japonês para aparecer, provavelmente, um bando de carentes por atenção que querem ser vistos por ser "diferentes".

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  4. Cara, primeiro de tudo, não gosto de anime, mas boa parte do que você disse eu concordo, só não com a parte de virar "povão". Não pelo fato do anime ficar mais popular, mas para não crescer o tipo de otaku que você mencionou, afinal os animes estarem como estão não me fizeram cortar amizade com meus amigos otakus e muitos são ótimas pessoas, porém tudo que se populariza demais, acaba se tornando um exagero, e os posers aparecem aos montes

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  5. Grande análise, mas talvez um pouco discriminatória. Assim como qualquer grupo identitário cultural, os otakus/otomes/kawaii-desu têm seus trejeitos e características comuns. O fato de tais membros reproduzirem parcas palavras em japonês e se vestirem como crianças pode nos soar como incômodo - às vezes e para alguns -, mas o grupo se identifica. É bem orgânico, todos se acolhem, creio. É como, por exemplo, um grupo punk ou de ideologia anarquista pichar tags com o "A", pelas ruas das cidades. Não me identifico - tenho amigos que o praticam -, mas tá sussa.

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  6. Que blog impressionante, realmente existem muitos que agem de tal forma, mas na minha opinião os verdadeiros "Otakus" são aqueles que assistem e se vestem apenas por prazer, e não para ficar comentando babaquices (Incluindo tanto frases em japônes quanto a discriminação da própria nação), particularmente eu também me considero um Otaku, uso algumas frases japonesas (Não no dia a dia, mas como forma de referência com alguns amigos) é sinceramente, também acho bem irritante essa forma que dizem "Anime não é desenho" sendo que o próprio significado da palavra é "Animação", assim como "Cartoon", no final é tudo desenho, pode chamar do que quiser, mas contrariar isso é pura arrogância é falta de conhecimento

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