domingo, 1 de novembro de 2015

Meninos, eu vi: O último dia do Sega Dreamcast

   Nada pode ser mais rápido que a luz. Essa afirmação costumava ser verdadeira até um tempo atrás, e a minha geração talvez tenha sido a última a acreditar nisso. Claro, todos sabemos que a luz é rápida. Mas nada como o Twitter. Nada como o Whatsapp: A informação, meus amigos de 2015, é a última fronteira em termos de velocidade. Hoje em dia ela voa - e voa rápido.

  Mas em um tempo não tão remoto, embora, veja só, um tempo em que meus alunos nem eram nascidos ainda (droga, detesto textos que me lembram como estou velho) a informação chegava devagar - especialmente a informação importante de verdade: a informação sobre os games. Provavelmente ela vinha a cerca de 20 km/h, com o tiozinho na motocicleta velha, que abastecia as bancas de jornal daqui com as revistas da época.

  Eramos informados ou desinformados por revistas semanais, as vezes, mensais. Que muitas vezes chegavam semanas (ou meses) depois da época em que foram escritas (já que games eram, bom, apenas games). As revistas tinham suas preferências e focos específicos. Muitas vezes nem davam de fatos notícias: Eram apenas amontoados de reviews (alguns deles bastante tendenciosos), previews, dicas e detonados - que pra uma geração inteira de jogadores que cresceu sem internet, era o que importava. Notícias como a situação financeira das empresas raramente tinham espaço, até porque, o grande público daquelas revistas eram justamente a molecada, que não queria saber de nada disso - só queriam um detonado do Resident Evil mais novo para seguir.

 Corria o ano de 2000 e também corria o carnê das Casas Bahia. Minha mãe havia, com muito esforço, conseguido parcelar o tão sonhado Sega Dreamcast para o seu filho único (no caso, eu), que estava literalmente vivendo um sonho: Pela primeira vez, seu videogame era o assunto das capas das revistas (quanto glamour) e invejado por todos os amiguinhos (quanta ostentação), um verdadeiro "next gen" numa época em que ainda nem se usava esse termo: Ele era um 128 bits e ponto.

 Se algum dia realmente houve uma Guerra de Consoles, esse dia aconteceu em algum momento dos anos 1990: A Sega e a Nintendo realmente atacam uma a outra em suas propagandas (e não só nas propagandas), a Sony tomou dois bolos e depois deixou todo mundo comendo poeira e talvez a frase da moda fosse "No amor e nos games vale tudo", já que a Guerra tem lá seus tratados internacionais para regular. Alguém pode argumentar que há uma guerra dos games rolando hoje mas não há: Hoje em dia as empresas mantém boa relação e quem fica discutindo são os fãs na internet. Naquela época a história era outra.

 As notícias quando envolviam mais de uma das empresas de hardware naquela época quase sempre se tratavam de confusão. Era inconcebível pensar em qualquer aproximação entre Sony, Sega e Nintendo (principalmente entre as duas últimas). Embora parecesse divertido, o embate entre Sonic, Crash e Mario jamais sairia da nossa imaginação.

 Por isso, a notícia que encontrei naquela Nintendo World do meu amigo, que tinha o Conker's Bad Fur Day na capa, me parecia a coisa mais absurda da face da Terra: "Bomba! Nintendo compra a Sega?".

 A tal bomba que, fosse verdade, estaria na capa não apenas dessa, mas de todas as revistas da banca (possivelmente até nas de Playstation) era mais um traquezinho: A nota falava sobre um boato que estava rolando, mas deixava claro que não havia nenhum tipo de informação oficial a esse respeito.

 Se soubesse da situação financeira da Sega, eu talvez tivesse dado mais bola. É engraçado pensar nisso, mas naquela época, era fácil pensar que a Sega havia se reencontrado: No Brasil, o Dreamcast era sim um sucesso. Ainda que o Playstation fosse o videogame mais comum por uma longa margem, no tangente aos videogames da geração 128 bits que se iniciava, o Dreamcast com certeza vendia mais que o Playstation 2 naquela época aqui em terras tupiniquins, até pela enorme diferença de preço: Um Dreamcast podia ser encontrado por R$ 500,00 com um pouco de pesquisa, e um Playstation 2 estava na casa dos R$ 1500,00 ou mais.

  Aquela notícia era absurda. Nintendo comprar a Sega? Antes disso acontecer, talvez a gente visse a Kodak perder a liderança no mercado de câmeras (o que não estava muito longe de acontecer no final das contas).

 O tempo passava e os jogos de Dreamcast ficavam cada dia mais incríveis: Shenmue 2, o que era aquilo? Crazy Taxi 2 e sua insanidade. Illbleed e muitos ataques cardíacos lá e cá. Como jogador não havia do que reclamar, mas outras notícias estranhas iam aparecendo, seja nos rodapés das revistas ou mesmo no boca a boca da galera, e pulgas começavam a se acomodar atrás da orelha (metaforicamente, sou limpinho): Sonic estaria entre os jogos do lançamento do Gamecube? Crazy Taxi iria aparecer também no Playstation 2? O Sonic Team havia encomendado kits de desenvolvimento do Xbox? A Microsoft estava contratando os game designers da Sega? Os boatos rolavam e muita gente já se preparava para o pior, as vezes, até um ponto que beirava a sandice, como o vendedor de uma loja de games que deixou minha mãe furiosa ao responder a ela que não trabalhava com jogos de Dreamcast porque "era um videogame sem futuro". Poxa, a mulher ainda estava pagando o console sem futuro! Francamente, por pior que fosse a situação, não havia a menor necessidade do cara falar isso pra uma senhora leiga em games que entrou na loja na esperança de fazer uma surpresa pro filho de 10 anos.

 Ainda que não quisesse acreditar, as revistas já começavam a dar sinais de que o vendedor, por mais babaca que fosse, estava bem informado: Ao passo que a Herói do mês anterior já havia feito uma matéria sobre os consoles da nova geração sem envolver o Dreamcast neles (ao qual a revista definia como "um videogame que começou bem e deu uma parada, provavelmente logo se tornará coisa do passado"), a remessa seguinte de revistas já trazia, de verdade e pra quem quisesse ler, os primeiros previews de jogos como Crazy Taxi no Playstation 2 e, o mais absurdo dos absurdos, Sonic Adventure 2 no Gamecube. Sonic num videogame da Nintendo. Sonic num videogame da Nintendo? Céus: Sonic num videogame da Nintendo!

 Mal dera tempo da notícia repercutir no recreio, ou de eu entender como poderia, a Sega, dar suporte ao Dreamcast e entregar suas melhores armas aos rivais: Naquela noite de quarta feira, dia 31 de janeiro de 2001, o jornal Estadão que meu tio religiosamente trazia do trabalho pra casa (pra que eu pudesse ler os esportes e, nos dias de quarta feira, a sessão "Link" que falava de tecnologia, dois assuntos que eu já gostava desde pequeno) me trouxe uma notícia pra lá de dolorosa: Sega vai parar de fabricar o Dreamcast.

  Era isso. Aquele seria meu console naquela geração, um console que havia caído antes mesmo da luta começar. Minha mãe jamais me compraria outro tão rápido (e eu era testemunha do esforço heroico que foi para ter comprado aquele, em épocas que não eram fáceis), e mesmo que fosse, eu não queria: Os videogames da Sega haviam sido a minha maior alegria até aquele momento, desde que eu tinha 4 anos de idade e meu tio trouxe aquele Mega Drive com Sonic 2 pra casa. Como assim, iria acabar? Eu simplesmente não conseguia ver o mundo dos games sem a Sega. Não conseguia ver o meu mundo dos games sem a Sega. E não veria tão cedo.

 Apesar de ter durado muito pouco, o Dreamcast havia recebido um número de jogos de qualidade realmente assustador até aquele momento. O simples fato de que novos jogos iriam cessar era um problema contornável visto que pra mim, a maioria dos jogos de Dreamcast eram novos jogos naquela ocasião.

 Com o Dreamcast eu segui firme e forte durante toda aquela geração de consoles. Os jogos de Playstation 2, Gamecube e Xbox eram modernos e comentados, mas cada vez que eu ficava com vontade de jogar um Prince of Persia: The Sands of Time e lamentava que ele não estava disponível no meu console, eu descobria um Sword of The Berserker e esquecia. Jet Grind Radio. Shenmue 1 e 2. Soul Calibur. Dead or Alive 2. Capcom vs Snk 2. Unreal Tournament e Quake 3 Arena. Rayman 2. Skies of Arcadia. Daytona USA.

 Os anos foram passando e os jogos nunca acabavam. Além dos próprios clássicos, depois de um tempo o Dreamcast ainda apareceu com um trunfo chamado emulação, e aí meus caros, ele se tornou realmente a máquina dos sonhos: Aprendi a gostar de Final Fantasy, quem diria, numa máquina da Sega. Até jogos de Playstation meu Dreamcast rodou (aquela tela piscando do Bleem talvez tenha feito um estrago permanente na minha retina).

 O sonho persistiu. O vendedor estava errado: O Dreamcast tinha futuro. O fato de ser um "videogame do passado" pouco importava: Com o Dreamcast eu aprendi que não importa que o jogo fosse "novo", basta que seja "bom.

 O Dreamcast foi meu principal console até 2005, quando, com o dinheiro do meu primeiro emprego (e uma mãozinha da minha mãe, novamente), eu comprei um Nintendo DS. E o Dreamcast continuou sendo meu principal console de mesa até 2009, quando comprei um Xbox 360 e meu Dreamcast finalmente pôde passar o bastão de console principal da casa e descansar.

 Mas as memórias daquele fatídico dia 31 de Janeiro nunca se foram. E sim, meninos, eu vi o último dia do Dreamcast. O último dia da Sega como fabricante de hardware.

Meninos, eu vi, talvez se torne uma mini-série aqui no blog (a depender da aceitação de vocês), onde pretendo narrar acontecimentos da indústria de games que se sucederam antes de toda uma geração de gamers que hoje já estão na adolescência sequer ter nascido, a partir de uma perspectiva diferente: Da perspectiva do jogador. Espero que vocês gostem. E sim, o título é uma referência à antiga coluna do jornalista Juca Kfouri no jornal Lance!. Espero que ele não veja problemas com a singela homenagem.

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