segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O Gene Egoísta

  “Amor de verdade, só o amor de mãe”, já diz a sabedoria popular. Mas será que é isso mesmo? O que exatamente motivaria esse amor tão incondicional, capaz de fazer qualquer sacrifício, independente das circunstâncias?

Muitos dizem que esse é um sentimento inexplicável. Mas alguns cientistas, no entanto, discordam, a afirmam que podem sim, explicar esse sentimento. Como? Do mesmo jeito que eles podem explicar porque você pensa que é dono de si mesmo, mas na verdade não passa de uma espécie de robô biológico (se é que isso é possível) programado para executar determinadas tarefas ao longo da vida.

Novamente devo dizer que não, eu não fiquei louco ainda (se fiquei, não me avisaram). Esse papo todo vai fazer muito mais sentido assim que eu explicá-lo. Venha comigo que você vai entender direitinho...



Quem é que manda aqui?

Basicamente, você não manda em você mesmo, ou pelo menos, não tanto quanto você pensa que manda. É o que diz a teoria do gene egoísta, proposta por Richard Dawkins em seu livro, “ O Gene Egoísta”, escrito na década de 70. O livro defende que a ciência está olhando a evolução da maneira errada: Não são os genes um simples meio usado para que os organismos passem suas características adiante enquanto se reproduzem, e sim, os organismos é que estão na condição de meio escolhido pelos genes para se reproduzir.

Com isso, somos “programados” para tomar certas atitudes que favoreçam a perpetuação dos nossos genes. Sabe aqueles momentos em que você pensa algo do tipo “não sei o que deu em mim” ou “não sei de onde consegui tanta coragem”? Então, segundo a teoria do gene egoista, são os seus genes agindo sobre você. Aliás, a teoria defende ainda que os genes tem a tendência a buscar um objetivo, e usar um método, em geral: Respectivamente, sexo e violência.

Por mais que isso não seja mais aceito em nossa sociedade, não há muitas coisas (biologicamente falando) que você não possa conseguir se for violento o bastante: Se o seu objetivo for comer, você consegue. Se for um lugar para dormir, você consegue. Se for passar seus genes adiante... Você consegue. E é exatamente isso que os seus genes são obsecados por fazer.

O Super–Organismo

Olhando assim superficialmente, o grande problema da teoria parece ser um comportamento muito comum em animais chamado altruísmo, em que um indivíduo ajuda os outros mesmo que isso não lhe traga uma vantagem específica. Esse comportamento não faz o menor sentido em seres que apenas pensam em propagar seus genes, embora não saibam disso. É ai que entra o Super-Organismo.

Esse conceito diz que os genes não devem ser olhados apenas em um organismo, e sim, em todos os organismos ao redor dele. Ou seja, organismo, dependendo do caso, pode se configurar como um individuo só, ou uma porção de indivíduos menores que formam um único organismo maior. Como assim?
O exemplo mais claro de super-organismo é uma colônia de formigas: A esmagadora maioria das formigas jamais irá passar seus genes adiante, já que a tarefa cabe apenas a rainha e alguns poucos machos. Mesmo assim, todas trabalham sem parar pelo bem da colônia. Isso não faria o menor sentido, se usarmos a lógica do gene egoísta... A menos que o organismo em questão não seja cada uma das formigas separadamente, e sim, a colônia como um todo. Ou seja, todas as formigas são partes menores do organismo maior que vai passar seus genes adiante.

A mesma lógica se aplica aos humanos: Sabe o dito popular que diz que família a gente até pode falar mal, mas se uma pessoa de fora falar, é o mesmo que comprar briga? É exatamente isso: Você protege seus familiares por que eles, teoricamente, compartilham alguns dos seus genes: Com eles estando bem, as chances dos seus genes se propagarem aumenta...

Coração de mãe

E aqui voltamos ao exemplo do começo do texto, sobre como explicar o amor de mãe. O que os defensores dessa teoria falam é o seguinte: Os organismos sempre farão o melhor para a propagação dos genes. Comparemos a mãe e o filho, do ponto de vista puramente evolutivo: A primeira é um organismo “velho” que já passou sua linhagem adiante. O segundo é um organismo mais jovem, que ainda não espalhou seus genes por ai. Qual dos dois é mais útil para um processo evolutivo, nesse momento? Sim, o mais jovem. Por isso a mãe, na condição de parte de um super-organismo, está disposta até a entregar a sua vida para salvar seu filho: Para os próprios genes dela (que são quem manda), a vida dela já não é mais tão útil assim...
Isso também explica alguns comportamentos em animais que organicamente parecem desvantajosos, como certas espécies de aranhas em que a fêmea come o macho depois do acasalamento: Se para o macho em questão a idéia não parece muito boa, para a perpetuação da sua espécie, um macho que morre 30 segundos depois de copular e um macho que vive mais dez anos depois disso, mas não tem mais filhos, são igualmente inúteis...

É, esses cientistas não cansam de fazer a vida cada vez parecer mais e mais cruel...

Um comentário:

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