sábado, 8 de janeiro de 2011

Canhoteiro, a lenda da ponta esquerda

  Segundo Zizinho, um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro, ídolo de ninguém menos do que Pelé, “Em um metro quadrado, conseguia driblar 3 ou 4 defensores, como manteiga que se aperta nas mãos!”

Já Aílton, que por muito tempo foi reserva desse jogador do qual estou falando, jura de pés juntos que “Ele podia driblar a própria sombra!”
Corria o mito de que o homem era capaz de driblar no espaço de um lenço. À época, dizia-se que ele era o Garrincha da ponta esquerda. Há quem diga, no entanto, que foi até melhor do que o demônio das pernas tortas.

Espera. Como pode haver um craque dessa magnitude, comparado a Mané Garrincha, e você, caro leitor, não conhecer? Simples: Esse driblou tanto, mas tanto, que até a fama ficou para trás. Conheça a história de Canhoteiro, o maior ponta esquerda que o futebol já presenciou...


Como criar um monstro sem querer

Não era para ele virar jogador de futebol. Naquela época, longe do glamour e da fama que temos hoje em dia, ser jogador de futebol não era necessariamente uma das profissões mais invejadas do mundo. Eles tinham fama de vagabundos, falando o português bem claro. Assim, o pai de José da Ribamar de Oliveira, menino apaixonado por futebol, amarrava o pé dele na mesa, para garantir que o menino fizesse a lição de casa e não fugisse para jogar bola.

Mas José não se dava por vencido, fazia bolinhas de papel com as folhas do caderno e fazia embaixadinhas para se distrair, usando a perna que ficava livre, a esquerda. Ele nem sonhava, mas assim surgia Canhoteiro...

A cidade grande

Com esse treinamento forçado, por assim dizer, ele acabou por desenvolver uma habilidade e um controle de bola impressionante com a perna esquerda, sendo que já era muito habilidoso com a perna direita naturalmente. De família pobre, Canhoteiro aproveitava essa habilidade toda para ganhar uns trocados, fazendo embaixadinhas na praça da cidade com moedas e outros objetos do tipo. Mais tarde, trabalhou como caminhoneiro, profissão que lhe ensinou a curtir uma noitada e uma bebida...

Chamou a atenção de um dirigente do Paissandú de São Luís. Mais tarde, foi para o América de Fortaleza. E finalmente, em meados da década de 50, chegava a São Paulo, para jogar em um ascendente São Paulo Futebol Clube, com a missão de substituir ninguém menos do que Teixeirinha, um dos maiores ídolos do clube em todos os tempos. Na época então, substituí-lo significava uma pressão terrível...

Não que Canhoteiro ligasse para esse tipo de coisas. Ele era, tanto na bola, quanto no temperamento, muito parecido com Garrincha: Para ele, o futebol não era muito mais do que uma brincadeira. E seu ofício era divertir o público. E não havia maneira melhor para fazer isso, do que se divertindo...E foi se divertindo, que ele mostrou a todos que a camisa 11 de Teixeirinha tinha um sucessor legítimo...

As vítimas

Pelo lado esquerdo, ele fazia o que queria. Sua habilidade levantava a plateia. Era um jogador fora do comum. Seu drible mais famoso era conhecido como “solavanco”, por conta do movimento rápido que fazia com o tronco afim de iludir o adversário. Mas diferente de Mané Garrincha, que era especialista em uma única jogada, Canhoteiro era mestre do improviso. Criava ali, na hora, seus malabarismos. Outra diferença com Mané é que este sempre saia para a direita em seus dribles. Canhoteiro podia ir para os dois lados, de acordo com sua vontade. Era ambidestro... Conquistou a simpatia de todos, incluindo, dos adversários. Foi um dos primeiros jogadores a ter um fã clube dedicado. Muita gente ia ao Pacaembu só para vê-lo.

Entre eles, um tal de Chico Buarque de Holanda, que inclusive escreveu uma música chamada “O Futebol” onde relata uma tabela dos sonhos, entre Garrincha, Pelé, Didi, Pagão e Canhoteiro...

E não se engane: Canhoteiro foi um jogador completo, não apenas um malabarista: Tinha um chute potente e cobrava faltas bem, dava assistências o tempo todo, jogava sempre visando o gol e até gols de cabeça chegava a marcar. Não que sempre tenha sido assim: Finalização foi o único fundamento que o técnico búlgaro Bela Guttman teve que trabalhar em Canhoteiro. O resto, ele jamais lhe deu instrução alguma, seja ela técnica ou tática. “Esses dois (referindo-se a Zizinho e Canhoteiro) não precisam saber mais nada. O que eu poderia dizer a eles?"

De muitos zagueiros que, atônitos, muitas vezes acabavam aceitando seu papel de coadjuvantes no espetáculo de Canhoteiro, aplaudindo-o ao final do jogo, um chama a atenção: Idário, zagueiro do Corinthians, muito conhecido por ser extremamente viril, para não dizer violento, durante os jogos. Esse era sua vítima favorita. Na final do Paulistão de 1957, Canhoteiro driblou Idário impiedosamente durante os 90 minutos, sendo o ponto mais cômico de todos uma sequência de, segundo as testemunhas, 14 dribles numa mesma jogada. Ao final da partida, enquanto os São Paulinos comemoravam o titulo, Canhoteiro foi até Idário e o convidou para comer um sanduíche com uma caipirinha. Idário aceitou, e desde então, se tornaram bons amigos...

Seleção Brasileira, baladas e medo de avião (?)

Depois de tudo isso, uma pergunta muito óbvia fica no ar: Se ele era tão bom, porque não se destacou na Seleção Brasileira? Bem, definitamente, não foi o seu futebol que o impediu...

Canhoteiro era um dos pré selecionados para a Copa do Mundo de 1958 na Suécia. Já na preparação para a Copa, saiu com o zagueiro Jandir, do Flamengo, para beber. Tomou um porre e foi excluído pelo técnico Vicente Feola, que convocou um tal de Zagallo para o lugar de Canhoteiro...

Seu comportamento descompromissado era um problema, e era agravado por um detalhe no mínimo curioso: Canhoteiro tinha um medo irracional de avião. Por isso, jamais fez questão de se mostrar arrependido, nem muito esforço para voltar a ser convocado: Para ele era um alívio não ter que ficar voando por aí...

Falando em curiosidades, vale abrir um páragrafo para contar essa rápida história: Quando Zagallo ameaçou não convocar Denilson para a Copa de 98 na França, Chico Buarque escreveu em sua coluna no jornal O Estado de São Paulo: “Já me pergunto se, barrando Denilson, Zagallo não pretende barrar Canhoteiro de novo, 40 anos depois!”. Para Chico, Zagallo privou o mundo de ver o que ele via, em 1958...
Pela seleção brasileira, Canhoteiro jogou apenas 16 partidas...

O triste fim...

Alheio a Seleção Brasileira, Canhoteiro brilhou no São Paulo mais ou menos até a época da inauguração do Morumbi. Foi nessa época que o zagueiro corinthiano Homero, com uma jogada criminosa, machucou seriamente o joelho de Canhoteiro, que jamais voltaria a ser o mesmo... Foi submetido a duas cirurgias e passou a mancar ligeiramente. Coincidentemente ou não, acabou ficando com as pernas tortas também.
Rodou por diversos clubes desde então, passando pelo México e Colômbia, por exemplo, e encerrou a carreira depois de voltar e jogar em alguns times pequenos de São Paulo, mas não chegou a ser nem sombra do jogador do São Paulo em nenhum deles... Seu corpo já não respondia mais da maneira como ele queria. O futebol estava fechando as portas para Canhoteiro...

Para piorar, Canhoteiro também foi um exemplo de jogador daquele tempo que conheceu a fama e não colheu os frutos. Seu desligamento o impediu de ganhar muito dinheiro. Assinava cheques em branco. Não ligava para dinheiro, tendo o suficiente para viver e farrear, para ele estava de bom grado. Chegava a doar o bicho da vitória para crianças pobres... Com o futebol, só conseguiu mesmo comprar uma casa simples para viver com a família em São Paulo.

De volta a cidade depois de suas aventuras no exterior, com as portas abertas no Morumbi, porém, já sem poder entreter o povo com seu futebol, precisava de um emprego. Com a ajuda dos dirigentes do SPFC, conseguiu um emprego na recepção do Banco do Estado de São Paulo. Servir cafézinho, atender o telefone, coisas do tipo. Voltou a ser Zé Ribamar. E passou a frequentar, praticamente anônimo, as arquibancadas do Morumbi, como torcedor...

Canhoteiro no time dos sonhos do SPFC
Casou-se com apenas uma mulher e teve uma única filha. Em 13 de agosto de 1974, comeu sua feijoada e tomou sua caipirinha, como sempre fazia. Reclamou de dor de cabeça. Saiu para trabalhar e desmaiou. Era um derrame. Foi internado e morreu 3 dias depois, aos 42 anos. Na época, o Jornal, o Estado de São Paulo, publicou que “Era um desses jogadores mais importantes que qualquer resultado, acima do próprio gol”.

E era mesmo. Quem viu, viu. Quem não viu, pode apenas imaginar... Dizem que seu espírito ainda pode ser visto nas arquibancadas do Morumbi, as vezes. Pena que ele não possa entrar em campo nessas condições... 

Um comentário:

  1. Parabéns pelo post. Gosto de pesquisar sobre jogadores lendários e gostei do que você escreveu sobre Canhoteiro.

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