quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A conspiração que se esconde no jardim

E lá estava ela. Seus olhos focados, concentrados. Era quase um desafio, uma proposta. “Não quer lutar? Pensa que tenho medo de você por que você é grande? Engana-se. Eu sou a espécie dominante, e essa é a minha chance de provar!”



É, se ela pudesse falar, diria isso. Ah se diria. Era abusada. Abusada o bastante para iniciar a batalha, investindo contra mim com as unhas e dentes que ela imaginava ter. Já que, embora agisse como se fosse uma imponente onça pintada, ela ainda era apenas uma barata. Alguns minutos de chineladas e vôos rasantes depois resolvi que jogaria sujo. Veneno. Game over, querida baratinha.

É engraçado observar o comportamento desses animais urbanos. Alguns (como a barata) se acham os verdadeiros donos da nossa casa. Ousados, não fazem a menor questão de se esconder. Normalmente, nem de fugir. E ainda mexem na nossa comida, nossas coisas... Devem comentar entre si o quanto nós somos folgados.

Aqui cabe um parêntese para os gatos: Estes, como as baratas, se acham os donos da casa. A grande diferença é que eles estão certos. Somos nós quem os fazemos pensar isso, tratando-os como reis, e agindo como seus escravos. E isso desde os tempos do antigo Egito. E diferentemente dos seus antepassados, os gatos de hoje ainda tem a mordomia de saber que não serão mumificados vivos caso seus donos morram. Uma beleza. Gatos hoje em dia nem sequer se dão ao trabalho de seguir o oficio para o qual foram originalmente recrutados. E estão mais que certos: Para que comer um roedor nojento, se ele tem comida em lata no potinho?

E falando nisso...

Outros animais agem como ninjas. Falo dos ratos. Se escondem, nos espionam... E quando menos esperamos, agem. Fazem as mesmas coisas que as baratas. Mas como são maiores, costumam ser mais bagunceiros também. Se descobertos, dependendo de sua capacidade, agem de diferentes formas: Podem fugir e desaparecer num piscar de olhos. Ou se revoltar e usar suas técnicas milenares pára nos atacar! É a diferença entre os ninjas faixa branca e preta. Ou camundongos e ratazanas, o que na pratica da na mesma.

Mas nem todos conspiram para dominar o mundo num futuro próximo. Alguns são extremamente pacíficos. Como as lagartixas. Não há animais mais zens do que esses. Não transmitem doenças, não mexem nas nossas coisas, não fazem barulho e não nos atacam. Apenas querem ficar lá, quietinhos, esperando para se alimentar dos mosquitos que se alimentam de nós. Prestam um serviço importantíssimo, e são capazes de se doar inteiramente para isso. Ou no mínimo, doar a sua cauda para isso. O que já é uma grande coisa. Lagartixas são verdadeiros mártires incompreendidos.

E há os arrogantes. Agem como se nós simplesmente não existíssemos. Formigas são ótimos exemplos. Formam carreatas em direção a comida que nós julgávamos ser nossa. Pegam o que precisam e vão embora. Não dizem obrigado, por favor, não dão nenhuma satisfação. E nem se dão ao trabalho de correr ao nos ver, continuam trabalhando, como se nada estivesse acontecendo. Devem pensar que somos uns desocupados, e que nunca fazemos nada, senão atrapalhá-las mudando as coisas de lugar. E falando em incomodá-las, experimente fazê-lo. Se revoltam, e nos atacam na base do “você é grande mas não é 100” ou da “união faz a força”.

Há no entanto um que me desperta especial atenção. O falcão. São os reis nos céus urbanos. Sobrevoam, lotados de orgulho, em busca de alimento. Despertam admiração de todos os animais, incluindo os humanos. E não se contentam em dividir seu espaço com outros. Nem mesmo outros falcões. São a imagem da liberdade, e do orgulho. Um animal que se recusa a aceitar que sua floresta não existe mais, e observa lá de cima o mundo modificado ao que os outros se adaptaram na marra. Assim é o falcão.

E os exemplos poderiam facilmente virar livro. São abundantes. Dos exibidos beija-flores, aos cachorros “pit boys”, passando pelas joaninhas mal humoradas (ou você acha que é fácil manter um bom humor quando todas as crianças que te vêem querem te pegar?), as abelhas provocadoras (se divertem atrapalhando nossos piqueniques, tentando roubar nossos lanches), enfim...

Depois que comecei a observar esses fenômenos de comportamento animal, cheguei a apenas uma conclusão: Não somos a espécie dominante, e sim a espécie manipulada pelas outras. A impressão que passa é que as outras não se adaptaram ao nosso mundo, nós é que constantemente nos adaptamos as outras...

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