terça-feira, 30 de março de 2010

A diferença entre as lendas e os humanos

“Eles vão pra última curva... Foi na última curva ano passado! Hoje não! Hoje não... Hoje sim! Hoje sim...? ”

  A frase de Cléber Machado seria cômica se não fosse trágica... Ficou eternizada por ilustrar perfeitamente o sentimento de todos diante de um dos atos mais covardes da historia do esporte brasileiro, ou no minimo um dos mais frustrantes: O trágico GP da Áustria em 12 de maio de 2002.

  Sim, aquele em que Rubens Barrichello praticamente parou e deixou Michael Schumacher ultrapassa-lo a alguns metros da linha de chegada, obedecendo as ordens da sua equipe.

  Passados praticamente oito anos, o incidente servirá para demonstrar a diferença de quem nasceu para ser olho, e quem nasceu para  ser remela, aqui no blog. Você verá o quanto o mesmo detalhe que decidiu essa corrida, decidiu a carreira de ambos os pilotos. Um, o maior de todos os tempos. O outro, o eterno quase campeão.
  Vamos lá.



  Primeiro, veremos o contexto por varios angulos:
  Rubens, ou Rubinho para os fãs (classe a qual esse escritor não pertence), era a esperança brasileira na F-1 pós Senna. A bem da verdade, não da pra negar que ele foi muito azarado de ter atingido o auge bem na época em que o público buscava um substituto para o tri-campeão recém falecido.  A mídia (cof.. cof... Galvão Bueno... Cof...) criou essa espectativa. E Rubens não era o novo Senna.

  Schumacher já tinha seu talento reconhecido por todos, já era multi-campeão e andava a passos largos para mais um título. A época o alemão vencia tanto, que começou a ser odiado (!). Ele não precisava daquela vitória para ser campeão. Todo mundo sabia disso, inclusive ele.

  Barrichello era o segundo piloto do Schumacher. Isso é mais do que parece. Todas as equipes tem seu primeiro e segundo piloto. O que muda? O primeiro piloto tem os melhores mecânicos, os melhores preparadores físicos, os melhores estrategistas, usa o carro mais confiável, faz os testes na pista depois do segundo (acredite, isso faz uma diferença terrível) e outra porção de regalias. Na F-1, os segundos são os segundos e ponto final. E é assim em todas as equipes.

  E então, o que aconteceu de fato?
  Barrichello fez uma corrida perfeita. Liderou de uma ponta a outra. Na época de vacas magras de vitórias brasileiras, essa lavaria a alma. E então, a poucos metros do final... Ele praticamente parou o carro. E Schumacher passou e venceu a corrida.
Veja aqui o momento da polêmica ultrapassagem

  Rubens recebera uma ordem “de cima” que dizia para deixar o alemão passar. E finalmente chegamos no nosso ponto chave: Qual foi o pensamento de cada um deles no momento que a ordem chegou.

  Que tal se eles próprios te falarem?

  “Eu realmente não queria deixar ele passar aquele dia. Eu pensei em desobedecer e vencer a corrida. Mas eu sou profissional e tenho que acatar ordens, mesmo que as vezes não concorde” - Rubens Barrichello.


  “Eu achei muito estranha a ordem, especialmente por ser tão encima da hora. Quando o vi diminuir daquele jeito cheguei a pensar em parar e não passar enquanto ele não vencesse. Mas na hora o desejo pela vitória falou mais alto. Venci primeiro, me arrependi depois”
  - Michael Schumacher.



  Se ainda não ficou bem claro, vou traduzir em miúdos aqui qual a diferença entre um vencedor e um coadjuvante na vida: Rubens pensou em vencer. Mas teve medo de estar fazendo a coisa errada, e preferiu perder a se arriscar na vitória. Schumacher por outro lado sabia que a vitória não era a coisa certa. Mas estava no seu sangue, o desejo pela vitória a todo custo.

  Schumacher ganhou, inclusive, o apelido de Dick Vigarista ao longo dos anos, por que sempre colocou a vitória em primeiro lugar. Senna era assim também. E Alain Prost. E Piquet. E Mansell... Pilotos com quem Barrichello correu, com quem ele aprendeu. Ele aprendeu muito, se tornou um ótimo piloto. Mas um piloto prudente demais. Sem ambições. Sem coragem.

  Schumacher se tornou o maior campeão da F-1. O cara que venceu mais GP's. O cara que fez mais pole-positions. O cara que... Bem, pense num recorde da F-1. Pensou? Então, pertence ao Schumacher. Menos 1: Rubens é o cara que participou do maior número de Gp's. E não chega sequer perto de ser um dos que tem mais vitórias. Como pode? Simples: Faltou coragem.

  Aquele dia, Rubens teve medo de perder seu cargo na Ferrari. Ora, tivesse perdido mesmo, talvez fosse para outra equipe, e lá ele não seria o segundo piloto de ninguém. E não teria que acatar ordens assim. Mas ele preferiu ir pela sombra. E assim, viu seu auge acabar na sombra do alemão.

  O medo de perder tira a vontade de vencer. Essa lição a gente pode levar pra vida.

  O que você prefere: Ser o Schumacher campeão que sempre priorizou a vitória, ou ser o Rubens segundo piloto que teve medo de vencer? A escolha é sua.

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