quinta-feira, 8 de abril de 2010

O choro dos vencedores

  Aquele dia ele não se importou de acordar cedo. Por mais que acordar cedo num domingo frio soasse como uma ofensa, ele não se importou. Acordou espontaneamente, antes até do despertador. Mal pregou os olhos, alias.

  E não estava cansado. Pelo contrário, estava animado. Mas essa animação não se traduzia em palavras ou gestos. Pelo contrário, parecia estar distante.
 

  Ansioso, ligou sua TV com quase uma hora de antecedência. Sua mãe e seu avô logo chegaram para acompanhar. Mas aquela TV era pequena. Ele precisava ver melhor, não podia perder nem um detalhe. E foi para a TV de sua avó. Agora sim.
 

  Pipocas, cobertor, TV ligada, concentração. Tudo pronto.
  Mas o que estava para acontecer? Futebol. Seu time lutaria por um titulo mundial aquele domingo de manhã.
  Sim. Todo esse drama por algo que a rigor não mudaria nada em sua vida. Tudo isso para torcer por gente que nem sabe quem ele é. Tudo isso para sofrer, sem nenhuma garantia de retorno. Aliás, tudo indicava lágrimas ao final. Muitas lágrimas. Mas ele não ligava para nada disso. Apenas queria estar ali. Sentia-se parte do time, com o compromisso de acompanhar, de torcer, de apoiar. Fazer sua parte.

  Mesmo que o jogo fosse ocorrer do outro lado do mundo. E assim foi.  

  Tão logo a partida começara, ele já tremia. De frio? Não. De medo? Menos. Ansiedade. Cada minuto era uma eternidade. Cada minuto voava como se fosse um segundo. Sim, contraditoriamente, da maneira que só o coração de quem esperou por 15 anos sabe. A cada lance, a cada drible, vinha junto uma frustração, uma esperança, um susto, um sentimento.

  26 minutos do que ele pensou se traduzir em sofrimento. 26 minutos.

  E então, a magia. Magia proporcionada apenas pelo futebol, o esporte onde tudo pode acontecer, onde o improvável é provável e por vezes mostra sua cara para rir de quem confia unicamente na lógica. O Gol. 1 x 0. E os palavrões.

  Ele não era do tipo que falava palavrões assim, a deus dará, sem motivos. Especialmente dentro de casa, na presença de sua rígida e disciplinadora avó, que a parte do fato de que ele já havia completado 15 anos, não dispensava lhe puxar a orelha quando preciso. Mas naquele momento ele não podia expressar de outra forma. Ofender o próprio gol do time? Não. Ele estava ofendendo todos os que nos últimos meses haviam duvidado, caluniado, ironizado. Eles não teriam chance? Eram inferiores? Tomariam um baile? Não. Ganhavam o jogo. Ponto.


    E ele chorou pela primeira vez aquele dia.                                    
  Mas o sofrimento, de fato, começaria ali. Mas haviam heróis. E como heróis, lutaram até o final. Não se entregaram. O intervalo foi dono dos 15 minutos mais demorados de toda sua vida até então. O segundo tempo, dos 45 minutos mais intermináveis, que ele jamais passou e provavelmente jamais passará de novo.

  Tudo que ele sofrera nos primeiros 45, foi dobrado nos 45 finais. E o adversário fez gols. 3 deles. Mas o futebol tem regras, e você não pode fazer gols do jeito que quiser. 3 gols irregulares. 3 vezes o tio, torcedor de um time rival, levantou-se e comemorou. 3 vezes o mesmo tio sentou-se decepcionado, enquanto nosso protagonista levantava-se e comemorava, aliviado. 3 gols que não foram. Que ele comemorou mais do que a esmagadora maioria dos que foram.

  45 minutos assim, de momentos únicos, imortais, que a rigor não duraram mais que meio segundo. Mas que, como tatuagens na alma, estão cravados em sua mente até hoje, e de lá não saem. Aquele dia nasceram heróis. Aquele dia, heróis se tornaram lendas.

  O sofrimento durou até o ultimo minuto. Ultimo instante. E finalmente, saiu de cena. Deu lugar a felicidade. As lagrimas. O segundo choro, bem justificado.
  E então a festa. O dia inteiro, onde tudo parecia perfeito. Tudo estava perfeito.

  Aquele dia, 18 de dezembro de 2005. Ele não vai esquecer. Aquele dia nunca vai terminar.

  Aquele dia que ainda lhe trás lágrimas aos olhos. Ainda bem que o blog não usa papel, senão ele estaria manchado pelas lagrimas.


 

SÃO PAULO
Rogério Ceni; Fabão, Lugano e Edcarlos; Cicinho, Mineiro, Josué, Danilo e Júnior; Amoroso e Aloísio (Grafite)
Técnico: Paulo Autuori

LIVERPOOL
Reina; Finnan, Carragher, Hyypia e Warnock (Riise); Sissoko (Pongolle), Gerrard, Xabi Alonso, Luís Garcia e Kewell; Morientes (Crouch)
Técnico: Rafa Benítez

Local: estádio Internacional de Yokohama, em Yokohama (Japão)
Árbitro: Benito Armando Archundia (México)
Auxiliares: Arturo Velázquez (México) e Héctor Vergara (Canadá)
Cartões amarelos: Lugano (S)
Público: 66.821
Gols: Mineiro, aos 26min do primeiro

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