terça-feira, 3 de abril de 2012

Hiroshima, Nagasaki e o homem mais sortudo da história


A guerra é insana. Muito mais do que estamos acostumados a ver nos videogames, na TV ou no cinema. Esse é o lado “bom”, o lado heroico, o lado bonitinho e fofinho da guerra (e veja que afirmo isso sem saber qual é a sua referência). A guerra, de verdade, é uma carnificina cruel e desalmada, onde muitas vezes uma morte dolorosa e agonizante é o que de melhor acontece com você.

A guerra tem histórias terríveis, muito pior do que a ficção retrata, porque a maioria das coisas que acontecem na guerra são repugnantes demais para ser reproduzido, mesmo que “de mentirinha”. A opinião pública tende a não gostar muito. Ou talvez, não o sejam apenas porque quem manda, não quer. Se as pessoas realmente tivessem noção do que acontece na guerra, pouquíssimos seriam os que apoiaram qualquer tipo de conflito armado, independente do motivo.

Na guerra, só há vítimas e vilões. Soldados e civis, são vítimas. Os poderosos que definem o destino de milhares de pessoas, sentados em suas poltronas confortáveis em seus palácios presidenciais situados à milhares de quilômetros da batalha, podem ser encarados como vilões. Heróis? Eles vão nascendo ao longo do conflito. A maioria morre, anônima, suja, jogada numa vala comum, desarticulada ou totalmente carbonizada, se der sorte. Poucos sobrevivem para contar. E esses são os que nos trazem as histórias mais incríveis.

E da maior guerra que se tem notícia, vem as histórias mais fantásticas. Acredito que poucas são tão interessantes (ou mesmo surpreendentes) quanto a de um senhor japonês, que jamais pensou em ser soldado, jamais pegou numa arma num campo de batalha, mas viu o inferno descer sobre a sua cabeça e saiu de lá vivo. Depois, o inferno foi atrás dele, e ele sobreviveu de novo. Um forte candidato ao título de maior “cabra macho” de todos só tempos: Tsutomu Yamaguchi, o homem que sobreviveu não a uma, e sim, a duas bombas nucleares!

  A Segunda Guerra Mundial foi uma batalha de reviravoltas, mas a aquela altura do campeonato já não parecia haver espaço para mais nenhuma delas (e não havia mesmo). A batalha estava decidida, com Hitler morto e a Alemanha Nazista rendida, pouco a pouco os Aliados consolidavam sua vitória e era muito claro a todos que guerra estava caminahndo para o seu final - Exceto para os japoneses.
 
  O que aconteceu no Japão, antes, durante e depois da guerra, foi uma espécie de massificação patrióta do Bushidô (que você pode conhecer melhor clicando aqui). Afim de encorajar os soldados e o próprio povo japonês a dar tudo o que tinha (e até o que não tinha) no conflito, incluindo suas vidas e as vidas dos seus filhos se necessário, o governo colocou na cabeça do povo que o Japão era a nação dos Samurais (uma meia verdade: Samurais eram japoneses, mas isso não implica que TODO japonês fosse um Samurai) e que eles deveriam lutar como tal. E assim foi.
  Mesmo estando claro que não haveria muitos meios de reverter a situação, o Japão recusava-se a desistir, supostamente sob a premissa de que um Samurai prefere a glória da morte em combate a vergonha da rendição - Ou seja, enquanto houvesse um japa aguentando segurar uma faca de cozinha, o Império do Japão não se renderia. A idéia, na verdade, era adiar ao máximo a rendição, de forma a negociar termos mais vantajosos para os japoneses do que os assinados por Itália e Alemanha. Independente do motivo, o fato é que mais e mais pessoas inocentes (que nem sempre pensavam como um Bushido) morriam. Essa foi a desculpa que os EUA usaram para  pulverizar duas cidades com suas duas bombas atômicas: Os ataques foram um recado do tipo, "ou vocês se rendem, ou nós mataremos suas mães, esposas, filhos e filhas, sem dó, sem piedade, sem compaixão". Bom, duas verdades rápidas: Primeiro, anos mais tarde algumas pessoas diretamente envolvidas nos ataques admitiram que tratava-se de uma ação totalmente desnecessária - a menos que fosse encarada como um teste ou pior, simples exibicionismo (uma atitude infantil quase ao nível de "hey, nós temos bombas nucleares e você não, lero-lero-lerooo"). Entre essas pessoas está o General Douglas MacArthur, que tinha sob seu comando as tropas aliadas naquela região e foi o homem que aceitou a rendição japonesa depois dos ataques. Em segundo lugar, se aceitarmos a justificativa das bombas como um "recado", podemos automaticamente considerá-las também um blefe, uma vez que hoje sabe-se que os EUA tinham apenas duas bombas, e uma terceira não ficaria pronta antes do final de 1966.
  Isto posto, voltemos aos fatos, e os fatos dão conta de que apesar disso tudo, os EUA realmente jogaram as duas bombas nucleares. A escolha dos lugares não foi tão por acaso assim e as condições escolhidas realmente assemelham-se a um teste: Além da importância que essas cidades tinham para a economia do arquipélago na época, outros motivos pesaram na escolha: A capital Tokyo já estava arrasada por diversos bombardeios, enquanto Kyoto, outra cidade símbolo do Japão, antiga capital tradicionalmente habitada por religiosos e intelectuais, era pouco populosa. Até o Monte Fuji chegou a ser cogitado! Mas a idéia era matar o máximo de pessoas possível, e Hiroshima foi escolhida para ser a primeira. Além de ser uma cidade populosa, a geografia da cidade tinha todas as características que pudessem potencializar os efeitos da bomba atômica - e matar o máximo de civis possível, visto que a última coisa que os EUA queriam era um episódio parecido com o da primeira bomba (bomba "normal" mesmo) atirada pelos Aliados em Berlim, que matou apenas um Elefante do Zoológico da cidade. Além disso, diferente das outras duas cidades, ambas ainda não haviam sido atacadas durante a guerra. Era o alvo perfeito.
  E é aqui que entra o nosso herói. Tsutomu Yamaguchi era um jovem engenheiro empregado pela Mitsubishi em uma época em que as coisas não iam tão bem assim, com a própria Mitsubishi encrencada financeiramente. Um belo dia, Yamaguchi, que aparentemente era um dos que preferia morrer do que ver o Japão se entregar, foi enviado até Hiroshima a trabalho. Ficaria por três meses e voltaria para sua casa. Num belo exemplo de Lei de Murphy, na manhã do dia 6 de Agosto de 1945, quando Yamaguchi e dois colegas de trabalho já se preparavam para ir embora, ouviram um forte estrondo vindo do céu. Nada que os assustasse, afinal, Hiroshima era uma cidade altamente industrializada e o Japão estava em guerra, logo, era comum ouvir o som de aviões militares cortando o céu. Mas esse não era um avião japonês. Tratava-se do US B-29 "Enola Gay", e a missão do mesmo era simples: Pulverizar Hiroshima com um "brinquedinho" apelidado Little Boy - Uma bomba nuclear. Yamaguchi afirma que segundos depois tudo o que ele pôde ver foi um clarão. E buuuuuuuuuuum! O tal clarão matou entre 140.000 a 350.000 mil pessoas em poucos segundos (as estimativas variam). Yamaguchi, mesmo estando a menos de 3km do local da explosão, sobreviveu, com graves queimaduras no torax e um tímpano destruído - Além de ter ficado temporariamente cego.
  Ele e seus dois colegas (também sobreviventes nesse primeiro ataque) acabaram por passar o dia ali mesmo, no meio do entulho e da radiação, sem ter muito para onde correr ou pedir socorro. A cidade estava totalmente destruída, incluindo os hospitais e seus médicos, quase todos literalmente desintegrados ou assados pela bomba. Para onde quer que se olhasse, só haviam escombros, cadáveres e pessoas moribundas pedindo por ajuda. Depois de uma noite num cenário pós apocaliptico, os três conseguiram pegar um trem de volta para as suas casas. Em Nagasaki...

  Nagasaki não era um dos alvos originais dos ataques. A segunda bomba, apelidade Fat Man, era maior e mais poderosa do que a primeira, e quando o avião B-29 decolou no dia 9 de Agosto, recebeu ordens de jogar a bomba sobre a cidade de Kokuro. Ao chegar lá, no entanto, não haviam condições de visibilidade suficientes para garantir o sucesso do ataque, e foi preciso apelar para o plano b. O plano b era a cidade de Nagasaki, e o B-29 "Bocks Car" corrigiu sua rota e migrou para lá. Enquanto o avião estava a caminho, sem desconfiar de nada, Yamaguchi estava no escritório do seu chefe, mostrando os ferimentos e contando a história. Foi quando ele viu um flash de luz muito familiar entrando pela janela... 

  Nagasaki não era uma cidade com uma geografia tão propícia aos efeitos de uma bomba desse tipo como Hiroshima, e pesou também o fato do avião ter chegado lá com pouco combustível, sendo obrigado a jogar a bomba um pouco antes do lugar ideal. Morreram entre 74.000 à 92.000 pessoas no ataque, menos do que Hiroshima, mas ainda assim, um número assustador. Yamaguchi novamente estava a cerca de 3km do "ground zero" (o ponto onde a bomba explode). E novamente sobreviveu. A esse ataque, não apenas Yamaguchi sobreviveu, como sua esposa e filho também, aliás. Familia dura na queda.

  No dia 14 de Agosto, o Japão se rendeu e Yamaguchi enfim deixou de lado a sua mania de ser atingido por bombas nucleares, abocanhando (involuntáriamente) o título de único ser humano conhecido a ter sobrevivido aos dois ataques. E o que se espera de uma pessoa que sobrevive a duas bombas atômicas? No mínimo, diversas doenças causadas pela exposição direta a radiação, certo? Bom, sim, mas Yamaguchi era um verdadeiro highlander e viveu relativamente bem, recebendo apoio e cuidados do governo japonês até 2010, quando morreu vítima de um cancer no estômago, em Nagasaki, aos 93 anos. Ao longo de sua vida, atuou como um forte opositor ao emprego de tecnologia nuclear para fins militares. Ainda se envolveu em uma polêmica com os ingleses da BBC, que em seu programa de comédia QI, o elegeram o homem mais azarado de todos os tempos. Yamaguchi, e o povo japonês em geral, não gostaram, o que gerou muito pano pra manga. Mas convenhamos, é difícil dizer ao certo, pois realmente ser atingido por duas bombas nucleares não é algo que acontece sempre, por mais azarado que você seja. Mas sobreviver a duas bombas nucleares também não é algo comum, mesmo que você seja a pessoa mais sortuda do mundo...

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