quarta-feira, 31 de março de 2010

A maldição da múmia


“A morte abaterá com suas asas, todo aquele que perturbar o sono do faraó”

 Bem, eles avisaram.
 A profecia, que se refere ao destino de quem ousasse violar o tumulo do faraó Tutancâmon, não foi levada muito a sério pelos arqueólogos da época. Naturalmente, devo dizer. Afinal, basicamente todo lugar sagrado que guarda um grande tesouro, segredo ou mística, vem também com uma maldição de brinde. Então, para que dar ouvidos a uma suposta “maldição da múmia”?

 De fato, deve ter sido curiosa a expressão facial daqueles membros da expedição que riram e ironizaram os avisos dados pelos nativos acerca da maldição, quando a primeira pessoa realmente adoeceu e morreu depois de adentrar a tumba do “jovem” faraó.


  Em primeiro lugar, como sempre, devemos ver o contexto: No final do século XIX, O arqueólogo Howard Carter conseguiu junto com sua equipe encontrar um raríssimo sarcófago praticamente intacto, com direito a uma múmia e (o mais raro) praticamente todo o seu tesouro. Considerada a descoberta do século (todas as outras descobertas similares foram saqueadas dezenas de vezes ao longo dos anos, não sobrando nem uma moedinha pra contar a história), a notícia e a imagem da imponente máscara de ouro do faraó correram o mundo, e Carter virou uma espécie de celebridade instantânea.

  Talvez fosse uma coincidência, talvez não. Mas já na primeira vez que os arqueólogos identificaram a câmera secreta onde se encontravam os restos mortais do Tuta ( e que este blogueiro não seja acometido por uma maldição por se dar a liberdade de apelidar carinhosamente o grande faraó...), o canário de Carter foi devorado por uma serpente. Segundo a lenda, serpentes são as protetoras das pirâmides. Mas não haveria de ser nada, afinal, serpentes comem canários. É só uma infeliz coincidência, pensaram eles.

  Bem, como o pobre canário não foi o bastante para chamar-lhes a atenção, poucas semanas depois foi a vez de algo maior passar para o lado de lá. Lorde Canavôn, financiador da expedição e um dos primeiros a entrar no túmulo de Tuta, adoeceu devido a uma pequena ferida, que tornou-se uma grave infecção, e morreu. Não antes de dizer, queimando de febre, a seguinte frase a sua irmã:

  “O senhor está me chamando e eu já entendi. Eu te seguirei, grande Tutancâmon!”

  Ainda na mesma noite em que faleceu, o cachorro de estimação do empresário também foi vitima de um enfarte fulminante e... Morreu!
  Ouve ainda no momento de sua morte, um apagão em toda a região onde ele estava internado.
  A noticia se espalhou e, bem, já começou a parecer muito mais do que uma simples coincidência. E parecia consenso entre o povo: Ele foi vitima da maldição da múmia .Não havia outra explicação possível.

  Mas ainda ficaria pior, já que Arthur Mace, Joel Woolf e Richard Bethell foram os próximos a bater as botas. Até a mulher e a irmã de Carter, que nem sequer estiveram no Egito, foram “vitimas da maldição”. Os populares explicavam essa aleatoriedade nas mortes dessas duas pelo fato delas terem sido vistas exibindo jóias retiradas da tumba em festas da alta sociedade inglesa.

  Ao longo de seis anos, quando o ultimo "amaldiçoado" morreu em um naufrágio, 35 pessoas ligadas a expedição foram desta pra uma melhor. Não restava duvida, Tutancâmon era um cara muito vingativo.

  E agora, chega a parte estraga prazeres do texto: A explicação para tantas mortes.

  Bem, algumas são simples fatalidades, coincidências mesmo (ou não...), como as citadas mortes do cachorro de Canavôn, da mulher e da irmã de Carter.
  Outras por puro descuido. Você deixaria um canário preso numa gaiola, sozinho numa região lotada de cobras? Eu não, a menos que eu quisesse me livrar do bichinho.
  O mesmo vale para Lorde Canavôn, que deixou a feria infeccionar antes de iniciar o tratamento.

  E algumas não devem sequer ser relevadas. A menos que Tuta fosse um grande adepto do ditado que diz que “a vingança é um prato que se come frio”, não faz sentido um infeliz levar seis anos para ser afetado pela maldição e morrer.

  Especialmente se ele morrer no naufrágio do Titanic, e levar muitas outras pessoas inocentes consigo em seu destino... E foi exatamente o que aconteceu.

  Mas, e as outras mortes, até então inexplicáveis, frutos de uma doença misteriosa?

  Muitos anos mais tarde, foi evidenciado que mesmo essas mortes não tinham nada de sobrenatural ou místico. Eram apenas uma doença nova, não identificada ainda pela ciência. Se tratava apenas do terrível “Histoplasma capsulation”, um fungo muito comum em cavernas, causador de uma doença sistêmica (que atinge vários órgãos) e que pode causar a morte. O fungo é muito encontrado, inclusive, nos excrementos de morcegos, e a infecção ocorre pela inalação do fungo.

  Já conseguiu visualizar?
  Uma tumba fechada por séculos. Milhares de morcegos. Um ambiente propício. E um monte de pessoas andando pra lá e pra cá, revirando tudo e levantando a poeira infectada com a bactéria durante alguns dias...

 Ressaltando que uma pessoa exposta a uma condição não letal dessa doença, desenvolve imunidade. E isso explica por que algumas pessoas entraram na tumba e não sofreram nada... Entre elas, o próprio Howard Carter, que já havia estado em inúmeras cavernas e outros lugares onde possivelmente teve contado com a bactéria. O primeiro a entrar na pirâmide, a encontrar a câmera secreta do faraó, abrir o sarcófago e retirar a mascara da múmia e todo o seu tesouro de lá, além do próprio corpo mumificado do Tuta.

  E como levar a sério uma maldição em que um individuo desses, que tinha tudo para ser o primeiro a morrer, de preferência com uma morte terrível para “aprender a lição” e servir de exemplo, sobrevive e ainda por cima fica rico e famoso as custas da violação do tumulo sagrado de um descendente direto dos deuses?

  É, não se fazem mais maldições como antigamente...

Um comentário:

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails