sexta-feira, 16 de abril de 2010

Dez anos é muito tempo

  Japão, século XVIII. Aquele feudo era um ótimo lugar para se viver. Uma terra muito bela, fértil, cercada de montanhas e que raramente era acometida por guerras. Mas isso não impedia que o senhor daquelas terras mantivesse um exército competente com as famílias de samurais me que ele confiava, para garantir sua proteção.

  E entre esses estava Haomaru. Ele era um samurai comum. Aliás, era até fraco em comparação com os outros. Mas para ele, pouco importavam essas coisas militares. Ele tinha um outro interesse: Nakoruru, a filha do senhor das terras. Eles se conheciam, apenas de dizer “oi” e olha lá. Nakoruru acompanhava os treinos esporádicamente ao lado de seu pai quando criança, e lá ela conheceu o também criança Haomaru. Ambos também se viam próximos a um penhasco, de onde era possivel ter uma bela vista do pôr do sol. Por vezes encontravam-se lá para assistir ao fenômeno, embora não trocassem uma única palavra. E com o tempo, esse apaixonou-se secretamente por ela.


  Um amor impossível, dizia ele a si mesmo. Ele não tinha nada que os outros samurais do feudo não tivessem. Alias, ele tinha de menos. Era fraco, vinha de uma linhagem pobre e não gozava de grande respeito perante ao senhor. Ela era muita areia pro caminhãozinho dele.
  Mas se havia algo que Haomaru tinha, era determinação. Tão logo completou 16 anos, ele decidiu que sairia pelo mundo, em busca de experiência como guerreiro, fama, reconhecimento. Ele voltaria outro. Voltaria alguém digno de merecer o amor de Nakoruru.

  E lá foi ele. Partiu sem dar nenhuma satisfação a ninguém. Foi embora seguindo os ventos, sem saber para onde ir ou o que fazer lá. Mas foi.
  E no caminho aprendeu muita coisa. Conheceu muita gente. Participou de algumas guerras como mercenário. Desafiou sozinho acadêmias famosas na época, saindo vencedor de todas. Sua fama começou a espalhar-se pelo Japão. Viajou por todo o arquipélago, acumulando conhecimento, fama e tornando-se um homem de honra, durante dez anos, quando achou estar preparado... E então resolveu voltar para casa e finalmente declarar-se para seu amor.

  Ao chegar, foi recebido com muita festa. O senhor das terras logo fez questão de sua presença, para parabeniza-lo e garantir-lhe um alto cargo e toda a estabilidade financeira que ele jamais imaginaria. Um grande banquete foi armado no castelo, e o clima era de muita alegria. Tudo estava indo muito bem, até ele perguntar se poderia falar com Nakoruru.

  Olhares foram trocados. A música parou. Os olhos do senhor das terras rapidamente encheram-se de lágrimas. E então, a notícia.

  “Caro Haomaru. minha filha, desde pequena, sempre lhe admirou muito. Gostava de ir aos treinos comigo apenas para te ver, embora você não brincasse com ela. Com o passar dos anos, ela tornou-se uma bela moça, e sempre rejeitou os rapazes a quem eu lhe apresentei. Ela queria casar-se apenas com um homem. Você. No entanto você partiu nessa viagem, sem jamais ter dado atenção a minha filha. Ela ficou muito triste, mas decidiu esperar que você voltasse, e então poderia declarar-se. Ela esperou por 8 longos anos, e bem, você não voltou. 
  Desgostosa com a vida, minha filha tomou então uma infeliz decisão, e retirou a própria, atirando-se daquele penhasco onde vocês assistiam o pôr do sol. Sabemos que você não tem culpa de nada e...”

  O silêncio tomou conta do salão nesse momento. Há momentos em que o silêncio diz tudo, e ele é cruel em suas palavras.

  Fica então o aviso. Cuidado, você pode ser o Haomaru da era moderna. Não espera dez anos para dizer que ama. E não tenha vergonha de ser quem você é.

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