segunda-feira, 7 de março de 2011

Juan Manuel Fangio: O melhor piloto de todos os tempos


  Houve um tempo em que a Fórmula 1 era completamente diferente do que você conhece hoje. Não era a tecnologia que decidia quem vencia as corridas. Era a habilidade dos próprios pilotos. Não havia tanta segurança quanto hoje. Tampouco havia a politicagem que, por baixo dos panos, muitas vezes define campeonatos. Naquele tempo, para vencer bastava ser bom.

Que tempo era esse? Bem, se você está pensando no tempo de Senna ou Piquet, e ainda associando a pensamentos como “aquilo sim era F-1 de verdade” e menosprezando os campeões atuais por conta dos avanços da tecnologia, tire seu cavalinho da chuva: Naquele tempo já era tudo igual ao que vemos hoje. O melhor carro quase sempre vencia, já havia muita politicagem, e mesmo a segurança era grande comparada com o tempo que eu estou falando. Para vencer não bastava ser bom, exatamente como hoje.

Estou falando do tempo do romantismo no automobilismo, onde ele, que para muitos foi o melhor piloto de todos os tempos, marcou seu nome. Estou falando dos primórdios desse esporte. Época em que um tal de Juan Manuel Fangio se eternizou.


O Manco

Fangio é filho de imigrantes italianos e nasceu em Balcarce, na Argentina, em 1911, onde passou sua juventude e recebeu seu apelido de infância, El Chueco (O Manco), jogando futebol com seus amigos. Definitivamente o futebol não era a sua praia. Aliás, esporte não parecia ser sua praia: A sua primeira corrida, guiando um Ford T aos 17 anos foi um fracasso, e ele terminou em último lugar.

Num tempo em que os pilotos não precisavam necessariamente vir de famílias com boa estabilidade financeira, Fangio, de família humilde, já trabalhava como mecânico desde os 12 anos e tinha uma paixão incontrolável por carros. Por isso, mesmo a péssima estréia não o desanimou. Ele continuou correndo, evoluindo e em 1939 ganhou as Mil Milhas da Argentina. A partir de então, as vitórias passaram a ser uma constante na vida do piloto.

A Fórmula 1

Fangio continuou correndo e vencendo na Argentina até o final da Segunda Guerra Mundial. Graças aos seus resultados impressionantes, acabou sendo patrocinado pelo governo Argentino para viajar a Europa e correr por lá, onde o automobilismo estava mais amadurecido. Começou a correr no velho mundo e a mostrar todo o seu talento em 1947, mas só disputou de fato o campeonato de Fórmula 1 em 1950, pela Scuderia SA Alpha Romeo.

Já naquele ano Fangio mostrou ao mundo quem era: Venceu suas primeiras corridas e terminou o ano em segundo lugar, um feito incrível para um piloto inexperiente na categoria. Ficou claro que se tratava de um futuro campeão. Mas ninguém podia prever que tipo de futuro campeão estava ali...

O Maestro

No ano seguinte, ainda pela SA Alpha Romeo, Fangio foi campeão pela primeira vez. Em apenas dois campeonatos ele já estava consolidado como um dos (senão o) grandes nomes da categoria. Fangio parecia invencível. Sua habilidade e técnica eram tão incomparáveis que ele recebeu um novo apelido: O Maestro. Ele parecia reger o ritmo da corrida. Fangio corria como queria, e os outros tentavam acompanhá-lo. Nada parecia poder pará-lo a não ser ele mesmo. E foi mais ou menos o que quase aconteceu...

No ano de 1952, o então campeão e sensação da categoria Fangio passaria pelo seu maior desafio. Fangio iria disputar o GP de Monza, na Itália,  porém, ao fazer uma escala em Paris, foi informado que não poderia prosseguir viagem por conta do mau tempo. O sempre determinado argentino não se deu por vencido, pegou um carro e foi ele mesmo dirigindo os 700km que separam Paris de Monza. No dia seguinte, durante a primeira sessão de treinos, o esgotado Fangio perdeu o controle e bateu sua Maserati, sendo jogado para fora do carro e ferindo gravemente o pescoço. Vale lembrar que naquele tempo, segurança era utopia, os pilotos corriam praticamente soltos nos seus carros e com pouquíssimos (e quase inúteis) equipamentos de proteção. O acidente aconteceu antes do campeonato daquele ano começar, lhe rendeu 40 dias internado e o impediu de correr por quase duas temporadas. Muitos acharam que aquele era o seu fim. Estavam errados.

Fangio voltou a correr ainda em 1953, ainda recuperando aos poucos a confiança. Tudo bem que isso foi o suficiente para colocá-lo em segundo lugar ao final do campeonato, mesmo ele tendo deixado de correr as primeiras corridas aquele ano...

Em 1954, Fangio parecia melhor do que nunca, fez uma dupla espetacular com o inglês Sterling Moss na equipe Daimler-Benz, ganhou quase todas as corridas e conquistou seu segundo título. Aliás, dali para frente foi uma série ininterrupta de conquistas: 1954, 1955, 1956 e 1957. A de 1955 no entanto, guarda uma lembrança um tanto quanto amarga...

O auge

Foi na temporada de 1955 que aconteceu o pior acidente da história do automobilismo mundial. Fangio não sofreu nenhum ferimento, mas estava envolvido. O acidente referido é a tragédia em que 81 espectadores e o piloto Levegh acabaram morrendo. Começaram a surgir boatos de que a Fórmula 1 seria encerrada, o que levou a Mercedes a se retirar do automobilismo na época.

Graças a isso Fangio foi parar na Ferrari no ano seguinte. Foi o ano mais genial dele. Foram simplesmente 6 pole positions em 7 corridas, das quais venceu 3 (nas outras 4 ele ficou em segundo lugar). Fangio, com a Ferrari, fez uma parceria dos sonhos que infelizmente durou apenas um ano.

Em 1957 ele voltou a Maserati. Naquele ano, Fangio fez a sua corrida mais espetacular em toda a sua carreira. No lendário circuito de Nürburgring, Fangio teve um problema durante o reabastecimento. Ficou bem para trás faltando apenas uma volta para o fim da corrida. Em uma performance simplesmente assustadora, não só recuperou o tempo perdido como conseguiu ultrapassar as duas Ferraris diante de um incrédulo público e seus rivais mais incrédulos ainda. Vale lembrar que Nürburgring é considerado um dos circuitos mais difíceis do mundo, e que naquela época, o traçado era mais desafiador e com menos pontos de ultrapassagem ainda. A volta foi tão impressionante que em 1958 ela foi eleita a mais impressionante façanha esportiva pela Academia Francesa de Esportes...

O fim

O ano de 1958 marcou o fim da carreira de Fangio. Naquele ano, Fangio ficou descontente com algumas decisões de sua equipe. A Fórmula já estava começando a caminhar para o que conhecemos hoje: Já havia muita politicagem, as vontades dos patrocinadores e o dinheiro começavam a falar mais alto na hora das decisões. Isso tudo deixou Fangio magoado e, sem ter mais nada a provar a ninguém, abandonou a categoria depois das primeiras corridas. Na época não disse nada a ninguém sobre suas razões, apenas um “acabou”. Saiu no auge. Naquele mesmo ano, Fangio ainda seria sequestrado em Cuba por guerrilheiros de Fidel Castro. Curiosamente, Fangio ficou amigo dos sequestradores. Alguns anos depois Fangio ainda reencontraria um dos participantes do sequestro, que havia se tornado ministro... 

Sempre tímido e de poucas palavras, Fangio viveu tranquilamente até 1995, quando faleceu aos 84 anos de causas naturais. Manteve-se ligado ao automobilismo durante todo esse tempo, de uma forma ou de outra. Entre us inúmeros pilotos que viu ao longo da vida, Fangio declarou que para ele apenas Jim Clark e Ayrton Senna chegaram perto da sua habilidade. Conta-se, aliás, que Fangio teria passado mal ao saber da morte de Senna em 1994.

Sua marca de 5 títulos levou 46 anos para ser superada, persistindo até 2003 quando Michael Schumacher vence o 6° de seus 7 títulos. Porém, alguns números dificilmente serão superados: Fangio é o piloto com o melhor aproveitamento na Fórmula 1, tendo vencido 47,06% das corridas que disputou, e 5 dos 8 campeonatos em que competiu  (62,5%). Se contarmos apenas as 7 temporadas completas que disputou, foram 5 titulos e 2 vices.. Também é o piloto com o maior percentual de poles (55,7%) e o piloto com a maior proporção de largadas na primeira fila, de onde largou em 94,1% das corridas que disputou. Por fim, também é o piloto com o maior percentual de pódios: 68,6%.

Correu por 4 equipes. Alfa-Romeo (1950-1951), Maserati (1953-1954 e 1957-1958), Mercedes (1954-1955) e Ferrari (1956). No total, foram 5 títulos, 24 vitórias, 35 pódios, 29 pole positions e 23 voltas mais rápidas ao longo de 52 GP's (51 largadas). Números impressionantes do piloto mais genial da história do automobilismo.   

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