segunda-feira, 20 de abril de 2015

As revistas de games

 "Eu queria muito jogar esse game, mas tem que ter a revista!"

 Pros mais novos essa frase é totalmente sem sentido. Mas pra mim, e pra toda uma geração que viveu os anos 90, a época mágica em que os games deixaram de ser apenas uma busca por pontuações infindáveis e se tornaram mais e mais complexos, ela faz todo o sentido.

 Revistas como Ação Games, Videogame, SuperGame e Game Power (e mais tarde a fusão: Super GamePower) e Gamers eram, em fato, tão divertidas e aguardadas quanto os jogos. Não havia internet: Nossas informações gamísticas dependiam delas!

 Eram tempos melhores? Não, não eram. Eram tempos péssimos. Mas as memórias tendem a se embelezar e por isso sinto saudades daqueles tempos. Acho que todos sentem. E por sentir saudade, me aventurei a ler uma revista de Games bem antiga, e as coisas que eu encontrei lá valem a conferida não só pra quem é das antigas e está com saudade: Você, jovem gafanhoto que não viveu aquele tempo, ao ler esse post poderá me ver falar coisas que estão muito além da sua imaginação! Mas os que viveram podem concordar comigo: Sim, é tudo verdade!

 Mais informação - Mais páginas - Menor preço

 Era assim que a Revista Gamers N° 21 tentava seduzir seus compradores. Se eles falavam a verdade eu não sei, mas suas 64 páginas eram vendidas por R$ 2,90 o que me parece bem barato pela ótica de hoje em dia. Aqui vale uma menção curiosa: Depois de um tempo, as revistas antigas eram vendidas em "bundles" com 3 ou 4 revistas juntas pelo preço de uma. Sim, eles vendiam revistas velhas com informações de 2, talvez 3 anos atrás. Sim, muita gente comprava - eu mesmo tinha uma generosa coleção graças a essas promoções. E eu lia a mesma revista várias e várias vezes - chegava a decorar alguns textos. A leitura era mesmo divertida!

 Mas infelizmente minha coleção já foi para o lixo a muito tempo e tive que apelar para a versão digital. A minha máquina do tempo foi o blog Retroavengers (clique aqui para acessar), que tem uma coleção muito bacana de revistas e seu acervo cresce a cada dia graças a colaboração dos leitores.

 Escolhi a tal Gamers #21 por um motivo simples: Eu nunca havia lido ela, nem quando criança. Assim não haveria (tanto) saudosismo me atrapalhando a ver friamente o que era a tal revista. O destaque da revista era o game Tomb Raider 2 que estava em produção, além de Mortal Kombat 4, outro game bastante esperado. A revista tinha 64 páginas - segundo eles, pra comemorar o primeiro ano de vida do Nintendo 64.

 Abro a revista, uma propaganda e... Sessão de cartas. Mas gente, cartas mesmo. Cartas escritas a mão, enviadas pelos correios, com selo e tals! CARTAS! Óbvio que haveria uma sessão de cartas, não existia internet, a revista é de 1997 - eu apenas tinha me esquecido disso. A sessão de cartas, aliás, é (sempre foi) um deleite. Entre as cartas, um leitor pedia ajuda pra aprender a cair em pé num dos games da série Art of Fighting. Amigos, cair em pé nesse jogo era simplesmente apertar um botão (qualquer botão) na hora exata que seu personagem tocava o chão.

 Imagine que o cara mandou a carta, essa carta teve que ir da casa dele até a redação via correios, ser aberta, lida, escolhida e finalmente publicada numa edição futura de uma revista mensal. Quais as chances dele ter descoberto a sua resposta antes disso? Grandes. Era comum que as pessoas mandassem cartas pedindo dicas e ajuda pras revistas - mas a verdade é que o grande barato era apenas ter sua própria carta publicada. Eu nunca tive uma carta minha publicada, muito porque nunca mandei, mas sei qual é a sensação, pois algumas vezes fui agraciado em aparecer numa sessão da revista EGM Brasil que elegia as melhores (ou piores) frases do mês na comunidade da revista no Orkut (essa já era mais moderninha) e mesmo sendo apenas zuado lá, era muito legal.

 Na mesma sessão, um leitor perguntava sobre Resident Evil 2 pra Saturn e outro sobre Street Fighter III: New Generation para Playstation e a revista respondia que nenhum estava confirmado, mas tomava um ar otimista sobre a possibilidade - e errava. Aliás, essa edição vem lotada disso: Especulações de coisas que jamais viriam a luz do dia. E isso a torna ainda mais divertida vista do ponto de vista de um viajante do tempo como eu.

 Outra coisa que eu não me lembrava: Sessão de desenhos dos leitores. Desenhos feitos a mão, com lápis e papel, a maioria enviados provavelmente por crianças. Alguns desenhos eram bons, outros muito ruins. Algumas edições tinham desenhos realmente impressionantes, mas não era o caso dessa.

 Dicas e Truques

 A sessão seguinte da revista era a sessão de dicas. Dicas. Cheats. Trapaças. Códigos! Essas coisas tinham um glamour muito maior e não eram tão vilanizadas quanto são hoje nos anos 90, por um motivo simples: Não havia internet. Ninguém usava cheat em jogo online porque não existia jogo online nenhum. Então se alguém usasse cheat em um multiplayer, e você não gostasse, você estava do lado do cara e bastava pedir pra ele parar, ou dar uns cascudos. Mas geralmente o efeito era o contrário: Usávamos cheats pra se exibir pros amigos. "Olha o juiz virando cachorro!" e coisas assim.

Os códigos aliás rendiam revistas inteiras só deles. Eram os famosos "Especiais". Uma revista inteira só com cheats! Se pra você isso parece algo inútil, saiba que naquela época uma revista dessas era a segunda coisa mais valiosa do mundo - a primeira veremos daqui a pouco.

Ainda na sessão de truques, haviam os códigos de gameshark. Gameshark pra quem não sabe era uma espécie de cartucho ou CD ou acessório especial que funcionava mais ou menos como um hack do jogo. Com esses códigos você podia ter habilidades impossíveis no jogo comum. Acho que não existe nada assim hoje em dia (tirando os hacks e mods propriamente ditos), mas na época era relativamente popular. Quem tinha um Gameshark não era alguém odiado, era alguém invejado. E acredite se quiser: As vezes eram lançadas revistas inteiras só com códigos de Gameshark.

Game News

Vem então a sessão de Previews, que abre com um Preview bastante detalhado de Mortal Kombat 4. O preview é extenso (mais de uma página, com letras bem miúdas), fala em detalhes sobre cada novidade do jogo e acha espaço até pra cutucar Street Fighter III (Third Strike ainda não era nem boato, então dá pra perdoar) e usava termos técnicos bastante "desnecessauros" (EPROMS, DSP? Só queria saber dos Fatalities!).

 O que chama a atenção é a "paixão" com que o redator escreve o texto. Ele não se parece como um analista sério e frio analisando um produto. Ele fala como um jogador que está louco pra por as mãos naquele game - como eu estava, como todos que estavam lendo aquilo na época estavam - e isso é que fazia essa leitura tão divertida. Esse padrão (da tal "paixão" pelos jogos) é encontrado ao longo de toda a revista, e é um diferencial e tanto. Ler um texto sobre games hoje em dia é como ler um caderno de política de certa forma: Apenas análises profissionais onde os elogios e críticas são guiados apenas pela razão e de certa formas contidos. Na Gamers e suas contemporâneas não era assim. Talvez não fosse o melhor do ponto de vista de informação, mas era definitivamente mais divertido de ler. 

 Outros jogos destacados nos previews são a versão Nintendo 64 de San Francisco Rush (que viria a se tornar um clássico), Mortal Kombat Mythologies: Sub-Zero (uma bomba) e Dragon Ball Final Bout (ame ou odeie, mas na febre de Dragon Ball da época, todo mundo babava).

Além, claro, do destaque da capa: Um preview grande de duas páginas (apesar de boa parte da segunda ser ocupado por imagens do jogo) sobre Tomb Raider 2, jogo de uma série que eu sempre achei muito chata mas que depois de ler o mais que empolgado preview da revista, quase me deu vontade de jogar (quase, mas já passou).

Rapidinhas

Uma sessão de notícias rápidas se segue, com algumas que se tornam deliciosas pra quem está lendo da nossa perspectiva de 2015. A sessão de rapidinhas é de apenas uma página e impressiona o fato de que metade do que está escrito lá são coisas que nunca viram a luz do dia no ocidente:

64DD: A revista previa que os pacientes donos de Nintendo 64 a espera do Disk Drive do console ficariam loucos pelo fato de que a Nintendo anunciou que o acessório atrasaria. Por essas bandas atrasou muito: Até hoje, abril de 2015, não foi lançado, tendo ficado apenas no Japão.

Neo Geo 64 Bits: Davam as especificações técnicas do novo Arcade da SNK, o Hyper Neo Geo 64. Esse sistema realmente foi lançado, apesar de ter feito pouco sucesso. Mas a revista dava como certo o lançamento de um console baseado nele, o que fazia sentido na época pela maneira como a SNK trabalhava até então, mas nunca aconteceu.

Para o Saturn, havia o anúncio de Resident Evil, jogo que ficou só no Japão, além do anúncio do cartucho de RAM 4 Mega, que eles estavam inclinados a acreditar que era um cartucho de 2 Mega pra se somar com os 2 nativos do Saturn, e relutantes em acreditar que era um cartucho com 4 Mega pra elevar para 6 a capacidade do consoles - que foi o que aconteceu.

Para Nintendo 64, Family Stadium 64, continuação de uma obscura série de beisebol (talvez não tão obscura em países que gostem desse esporte) cujo nome mais tarde mudaria pra Famista 64 e também ficaria apenas na terra do sol nascente.

Reviews

Os reviews são escritos com a mesma paixão que os previews - pro bem, e pro mal. O jogo do mês dessa edição calhava de ser um jogo que se tornaria um dos maiores clássicos de todos os tempos: Final Fantasy Tactics. Mas é curioso notar que o jogo não estava nem perto de sair nos EUA na época, e eles analisaram a versão em japonês! O mesmo ocorre em outros reviews, como o de Samurai Showdow RPG, onde eles ainda tem a audácia de dizer que, como os menus estão em kanji, "não dá pra entender quase nada, só testando cada um."

 E eis que chega a hora em que a tal "paixão" que eu tanto venho falando mostra seu lado sombrio. A análise da versão Playstation de The King of Fighters 96 é de dar um nó na cabeça de qualquer um: O analista diz que a SNK não conseguiu adaptar o game muito bem, reclama dos loadings, diz que o jogo sofre de slowdowns que atrapalham a jogabilidade e encerra dizendo para que você "não deixe de jogar esse super game da SNK para o seu Playstation! O que esta esperando? Jogue!". A nota? 92/100. A impressão de que o cara recebeu um jabá da SNK por fora é imensa, ou sou eu que estou delirando?


Outra menção curiosa é Sonic Jam. O port caprichadinho cheio de fan-service dos primeiros Sonics para Saturn é muito bem avaliado aqui (na época ainda não era modinha falar mal de todo game do Sonic, sendo ele bom ou ruim). O que o redator não tinha como saber é que esse seria o mais próximo que o Saturn teria de um game do Sonic em seu estilo tradicional. Ao final do review, ele se perguntava: "O estranho é que a Sega não falou mais nada sobre Sonic X-Treme para Saturn, o que ela estaria tramando?". Amigos, sem saber esse redator escreveu uma frase atemporal que define o que era a Sega naquele ano de 1997.

Essa edição ainda trazia o review de um dos pouquíssimos jogos em 2D do Nintendo 64, o obscuro (pelo menos pra mim) Yuke Yuke Trouble Makers, que pelo review (de idoneidade questionável depois que eu vi o do KoF '96) parece ser um jogo divertido.
Detonados.

A única coisa mais valiosa do que uma revista de códigos nos anos 90 era uma revista com o detonado de um jogo popular. Não, não havia Gamefaqs na época, ou talvez houvesse, mas nós não tinhamos acesso a nada disso. Empacar num game só tinha duas saídas: Pedir ajuda pra algum amigo ou ler o detonado numa revista de games. Havia ainda a seguinte situação: Os jogos daquela época eram mais difíceis que os de hoje em dia, e o entendimento de inglês da molecada era praticamente nulo. E pra piorar, era o meio da transição do 2D para o 3D nos jogos, então muitas vezes o próprio jogo era mal planejado por falta de habilidade da produtora. Era comum  e desejado que as revistas publicassem detonados (alguns atrapalhavam mais do que ajudavam) e as vezes saíam edições especiais das revistas só pra esse fim (uma revista detonando todos os games da série Resident Evil, por exemplo).

Nas versões tradicionais da revista, jogos mais curtos podiam ser detonados numa edição só. Mas e os gigantescos RPG's? As vezes eram divididos em partes, ou seja, um único game podia ter seu detonado publicado ao longo de meses... Haja paciência pros jogadores hein?

Essa edição vinha com a segunda parte do detonado de Wild Arms e usava nada menos que 9 páginas com a segunda parte do Final Fantasy VII. Ambos os detonados ainda continuariam na edição seguinte.

Golpes de jogos de luta também eram detonados, e essa edição publicava alguns dos golpes de Tekken 3 em sua versão arcade, e questionava: Será que o Playstation vai precisar de um cartucho de expansão pra rodar esse game? Será?  No total a revista levou 3 edições pra publicar todos os 1156 golpes do jogo. Ufa!

Apesar de desesperador pensar nisso agora, isso me lembra como naquela época os grandes jogos eram valorizados por mais tempo. Passava-se meses, as vezes anos falando sobre um grande lançamento (e eram muitos os grandes lançamentos) tanto entre os jogadores, quando na mídia especializada. Isso vai na contramão do que é universo gamer hoje, onde muitas vezes a sensação que temos é que um jogo com 2 meses de vida já se tornou um jogo "velho" que ninguém mais lembra. Há até no finalzinho uma página com alguns mini-reviews de games antigos da geração passada, algo impensável hoje quando os jogadores chamam o review de um jogo que será lançado semana que vem de "atrasado"

E assim terminava a revista e a minha divertidíssima viagem no tempo. Ver uma revista dessas relembra o tempo em que os games não eram vistos como "entretenimento", e sim, como "diversão". Talvez fosse mais divertido. Se eu gosto tanto de games hoje em dia, a revista Gamers (e suas contemporâneas) tem muita culpa no cartório. Muitos games eu me tornei fã sem nunca ter jogado, apenas por causa deles. Muitos games excelentes eu jamais teria jogado, se não fosse por eles. E essa paixão, essa maneira de falar de um game como algo que faz sua vida melhor de fato, é algo que eu realmente aprendi deles.

Por isso com essa postagem o que eu quero mesmo dizer é: Obrigado revistas de games e todas as pessoas que trabalharam pra que vocês fossem uma realidade! Muito obrigado mesmo! Vocês não fazem idéia de quantas pessoas ajudaram!

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